Arquivo do mês: julho 2012

Campanha do Voto Nulo em 1988 (3)

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Comunistas de partidos como PCdoB ou PCB, e muita gente ortodoxa dentro do PT, sempre consideraram o anarquismo como uma espécie de Utopia, às vezes adjetivada de pequeno-burguesa, às vezes de contra-revolucionária. E, em geral, tacha-se anarquistas de pouco, ou nada, organizados.

Josef Stalin, apenas como exemplo, criticava (e chegou a assassinar) anarquistas porque eles teimavam em não entender que existem dois tipos de Ditadura. Lendo hoje um texto escrito por ele em 1907 não podemos deixar de achar uma situação tragicômica:

É claro que há duas espécies de ditadura. Há a ditadura da minoria, a ditadura de um pequeno grupo, a ditadura dos Trepov e Ignatiev, dirigida contra o povo. À frente de uma tal ditadura, figura ordinariamente uma camarilha, que adota decisões secretas e aperta a corda no pescoço da maioria do povo. E há a ditadura de outro gênero, a ditadura da maioria proletária, a ditadura da massa, dirigida contra a burguesia, contra a minoria. Aqui, à frente da ditadura se acha a massa, aqui não há lugar nem para uma camarilha, nem para as decisões secretas, aqui tudo se faz à luz do dia, na rua, nos comícios, e isso porque é a ditadura da rua, da massa, uma ditadura dirigida contra toda classe de opressores. (Anarquismo ou Socialismo?).

Pois bem.

A Campanha pelo Voto Nulo em 1988 talvez venha a ser um indício de que essa “falta de organização” é na verdade uma propaganda daqueles que detestam os anarquistas por outros motivos: Talvez seja porque os anarquistas adoram mostrar o “Lado B” das revoluções que eles defendem, ou porque os anarquistas têm uma visão mais irônica e sarcástica do mundo, ou simplesmente porque os anarquistas não têm qualquer simpatia pelo autoritarismo, lutando contra ele na família, na escola, na fábrica ou mesmo dentro de um ônibus, em uma cotidiana viagem de um bairro a outro.

Em 1988 os anarquistas de Salvador conseguiram até mesmo montar uma “coletiva” com a imprensa.

O encontro entre anarquistas do Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA) e do Núcleo Pró-COB de Salvador com jornalistas de A Tarde e Tribuna da Bahia ocorreu em um barzinho na Praça da Sé, pertinho de onde ficava a sede da organização acrata, no 5º Andar do Edifício Themis.

Seguem as digitalizações das matérias resultantes do encontro com os repórteres dos dois jornais.

No texto do repórter da Tribuna da Bahia não é difícil perceber uma certa antipatia com relação ao que pensam os anarquistas. O questionamento de que os anarquistas não estão preocupados “com o que vai acontecer no país se os seus cidadãos decidirem não mais escolher seus representantes no governo”, é, no mínimo, simplista e equivocado.

O texto do jornal A Tarde não tentou emitir qualquer juízo de valor sobre as ideias dos anarquistas entrevistados.

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Arquivado em Ações, Década 1980, Organizações

Campanha do Voto Nulo em 1988 (2)

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A burguesia quando se sente ameaçada por alguma ação tomada pela sociedade, que não tenha sido pensada por ela, usa seus meios de comunicação para neutralizar aquelas ações.

É óbvio que para acreditarmos nessa ideia temos que crer na existência de algumas categorias: burguesia, luta de classes, etc.

Em 1988 grande parte da grande mídia, de propriedade de famílias burguesas, encontrava-se apoiando a redemocratização do país. Não nos esqueçamos que nos primeiros anos da década de 1980 muita gente ia para as ruas mostrar seu descontentamento em redor de todo o Brasil. Seja em greves contra o arrocho salarial, seja em manifestações contra a carestia, ou mobilizações contra a Ditadura Militar, dentre outros motivos. Muitas dessas mobilizações terminaram em violência, como o quebra-quebra dos ônibus de Salvador em Agosto de 1981, por exemplo.

O retorno às eleições diretas para Governadores em 1982, e a tentativa de eleição direta para Presidente entre 1983 e 1984 caíram como uma luva para as elites, que precisavam colocar a população no caminho da “paz”.

Seria preciso um instrumento duradouro para por fim, ou acalmar, as mobilizações com claro viés radical. A revista IstoÉ, em seu editorial na edição de 30 de novembro de 1983, parecia prever qual seria:

O título eleitoral, transformado em fetiche, assumiu para o brasileiro o valor emblemático, mobilizador, de um direito elementar de que lhe foi despojado. Algo indiscutível em torno do que as pessoas podem se unir, acima de suas eventuais diferenças políticas, pois ninguém em boa-fé duvida que somente a renovação pelo voto direto poderá salvar o país…

Quando anarquistas de Salvador decidem se reunir com um grupo de classe média insatisfeito com a generalização da corrupção na política baiana, políticos se unem aos órgãos midiáticos da cidade para contra-atacar.

Em 17 de Outubro de 1988, mesmo dia que Manoel Castro criticava o Voto Nulo no jornal A TARDE, sai na Coluna Política, no mesmo jornal, o seguinte:

O alto índice de indecisos ainda anotado junto à população de Salvador tem estimulado os grupos que trabalham pelo voto nulo – os tradicionais (se é que podem assim ser chamados) anarquistas e um movimento novo, de definição bastante nebulosa – pregando a omissão da sociedade no instante em que esta participação é da maior importância para a consolidação do regime democrático. É preciso salientar que esses grupos têm trabalhado num terreno dos mais férteis, devido a descrença que grassa junto à população, não apenas em relação aos políticos, mas sim, quanto ao comportamento dos homens públicos de modo geral. No entanto, a pregação pela omissão é das mais perigosas porque conduz diretamente a um beco sem saída e só interessa aos que defendem a teoria do “quanto pior, melhor”.

Sábado postaremos mais informações sobre a Campanha do Voto Nulo de 1988. Incluindo matérias de jornais que circularam em Salvador trazendo a opinião dos anarquistas sobre aquela Campanha.

3 Comentários

Arquivado em Ações, Década 1980

Campanha do Voto Nulo em 1988 (1)

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“Alguns indicadores da indiferença estão nas ruas. Em eleições passadas, é verdade, o voto branco e o voto nulo por erro do eleitor já tomavam proporções preocupantes. A despeito disso, o órgão superior da Justiça Eleitoral nunca somou os totais nacionais a ponto de permitir um estudo, por parte dos especialistas, do volume de votos nulos. O indicador novo é que o apelo ao voto nulo não parte hoje só de minorias anarquistas. Outros segmentos estao no mesmo caminho”.

Logo acima está trecho do Editorial do jornal A TARDE de 14 de Outubro de 1988, há poucas semanas da Eleição para a prefeitura de Salvador naquele ano.

Os principais candidatos naquela eleição foram: Fernando José (PMDB), Virgildásio de Senna (PSDB), Manoel Castro (PFL) e Zezéu Ribeiro (PT).

No editorial pode ser medida a preocupação dos órgãos de notícias que representavam as elites baianas com a possibilidade dos Votos Nulos alcançarem um grande percentual. E, até com um certo respeito, eles citam os anarquistas entre os grupos que, classicamente, defendem o Voto Nulo.

Os anarquistas, no ano de 1988, distribuídos entre grupos de trabalhadores (no núcleo Pró-COB), ou no Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista-CDPA, dentre outros, resolveram atacar de vez a Democracia Representativa lançando uma Campanha pelo Voto Nulo.

Por coincidência, alguns grupos de classe média também resolveram se mobilizar em defesa da anulação do voto.

Obviamente os dois grupos não tinham os mesmos objetivos gerais. Mas conseguiram, pelo menos uma vez, no intervalo entre Outubro e a data da eleição, unir forças numa Carreata.

Nas próximas postagens vou trazer mais material sobre essa Campanha.

Um abraço, e até a Terça-Feira que vem.

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Arquivado em Ações, Década 1980

Germinal (4)

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Quem já assistiu ao filme mais novo de Sherlock Holmes deve se lembrar de como aparecem os anarquistas de finais do Sec. XIX. Manipulados pelo inimigo do detetive inglês, os anarquistas lançam bombas tresloucadamente em toda Londres.

Obviamente aquela situação não surgiu no filme sem que houvesse alguma relação com a realidade. Entre o final do século 19 e começo do 20 muitos anarquistas deixaram de lado as letras, os jornais e as palavras, para agir de forma direta contra seus inimigos, no que se convencionou chamar de Propaganda pelas Ação.

Não nos esqueçamos do mais novo revoltado/famoso: Guy Fawkes. A máscara mais famosa nas manifestações anti-capitalistas através do mundo. O sujeito desejava destruir o Parlamento Britânico na base da bomba. Allan Moore e David Lloyd trouxeram a lenda de volta, com personagem sob a carapaça anarquista.

No livro, A Anarquia Perante os Tribunais (Centelha, 1984, Pag. 18) que aborda a defesa elaborada por Pietro Gori no processo-crime do Estado Italiano contra os Anarquistas de Gênova escreve-se o seguinte sobre aquele período:

É de acreditar que muito se receasse pelo desfecho do julgamento, pelas sucessivas vagas de histeria que as autoridades deixavam abater sobre os anarquistas, em consequência da onda de atentados, da autoria de anarquistas individualistas, que assombravam os governos.

A série já era longa, antes de junho de 1894, e já depois de 11 de julho de 1892, data da execução de Ravachol: em 23 de julho de 1892, Alexandre Berkman dispara e fere o magnata do aço Henry Clay Frick; em maio de 1893, Paolo Sehicchi lança uma bomba sobre o consulado espanhol de Gênova; em 9 de dezembro do mesmo ano, Auguste Vaillant atenta, também com dinamite, contra a Câmara dos Deputados francesa; em 12 de fevereiro de 1894 – o processo dos “Anarquistas de Gênova” aguardava o julgamento -, Émile Henry lança o pânico (ainda à bomba) no café de Saint-Lazare (e depois do julgamento, no dia 24 do mesmo mês, Sante Caserio apunhala Sadi-Carnot).

Espero não estar forçando a barra quando quero misturar o texto que segue, encontrado no jornal Germinal (01 de Maio de 1920, Num.03, Pág.07), com a conjuntura acima.

O autor do artigo escreve “especialmente” para o jornal. E escreve sobre um assunto que considero tabu (ainda mais hoje, em tempos de socialdemocracia e pós-modernismo). Texto parecido (com tamanha radicalidade) li apenas em documentos do início dos anos 1990, do Direct Action Movement (DAM), grupo anarquista inglês.

Hoje uma simples greve com ocupação do local de trabalho já é visto por muitos sindicalistas como uma coisa do diabo. (desculpem a brincadeira com o dito cujo, mas não achei analogia melhor).

Espero que gostem do texto (transcrito parcialmente), e até Sábado que vem, onde pularei algumas dezenas de anos para falar da propaganda sobre Voto Nulo ocorrida no final dos anos 80 aqui em Salvador.


O Valor e o Alcance da Sabotagem

(ESPECIALMENTE PARA ‘GERMINAL’)

A observação superficial dos resultados das inumeráveis greves que irrompem por todos os centros de atividade proletária deixa-nos a impressão penosa de uma série de derrotas cuja explicação não satisfaz a ninguém.

A causa das derrotas grevistas ou dos medíocres e insignificantes resultados dessas manifestações reivindicadoras reside unicamente no abandono da verdadeira tática a empregar nesses combates parciais que os nossos trabalhadores travam contra seus seculares e implacáveis inimigos do capital e do estado.

Em noventa e nove casos sobre cem as greves são perdidas, e se uma ou outra pode conseguir resultados apreciáveis, o fato reside na aplicação eficaz e oportuna da sabotagem ou, pelo menos, na ameaça de sabotagem da parte dos grevistas.

Como se compreende que um grupo numeroso de operários abandone uma oficina sem que a sua passagem por ela deixe os vestígios materiais  do seu protesto, de sua energia? Dar-se-á o caso das cegueiras coletivas que impedem a visão imediata das coisas para acender claridades longínquas e perfeitamente ilusórias?

É o que parece. O proletariado não sentiu ainda que o seu inimigo é o trabalho e que a arma assassina é o maquinismo ou a ferramenta com que ele executa a sua tarefa dolorosa.

E assim, por um velho respeito fanático pelo bem alheio, o grevista desvia a questão da greve para o lado de uma justiça que não existe e concentra as suas reivindicações no ponto negro do salário, sem se lembrar de que as armas, as verdadeiras armas que vencem a greve, ficam nas mãos do inimigo, respeitadas, intactas e formidáveis.

Em sabotagem, sem dano, sem destruição tão extensa quanto possível da ferramenta, da máquina, dos utensílios ou dos produtos de qualquer oficina ou fábrica, o resultado da greve é insignificante ou nulo. É isso pela razão claríssima e simplíssima de que o patrão continua dispondo dos mesmíssimos elementos com que explora e irá explorando as vítimas da sua ganância e da sua insaciabilidade.

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Arquivado em Década 1920, Jornalismo