Arquivo do mês: setembro 2012

Núcleo Pró COB-AIT (1)

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Os Núcleos Pró COB-AIT começam a pipocar pelo Brasil em 1987. Em determinado momento entre 1988 e 1992 havia grupos na Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Pará, Brasília, Rio de Janeiro e Paraná. O Congresso em Salvador foi importante como trampolim para ações no Nordeste, além de criar os princípios e diretrizes que norteariam o crescimento dos grupos, e mesmo a semente de algumas crises que redundariam no fim dos Núcleos no início dos anos 90.

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Arquivado em Década 1980, Década 1990, Organizações

A Grande Revolução, de Kropotkin

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Em entrevista feita pelo poeta Valter Bitencourt com o anarquista e ecologista Antonio Mendes o segundo fala sobre os motivos que o fizeram enveredar pelos caminhos do anarquismo.

Então, Antonio deixa claro que foi a leitura de alguns livros. Dois desses livros são, Filosofia da Miséria, de P.J.Proudhon, e A Grande Revolução, de Pietr Kropotkin, ambos clássicos da literatura libertária.

Então é isso. Deve existir alguma fábula que nos incite a acreditar nas possibilidades vindouras das coisas que escrevemos. Do que escrevemos com o intuito de mudar o mundo. E mesmo que não mude o mundo, possibilita a mudança de alguma alma vagante da humanidade. Alguém que continue o trabalho anterior e possibilite aquele conhecimento a novos espíritos vagantes.

A digitalização no topo é justamente da edição de um dos livros lidos por Antonio Mendes. O livro lido por ele, quando morava ainda em Quixeramobim, no Ceará, foi publicado pela Livraria Progresso Editora, de Salvador, Bahia, em 1955.

Veja a seguir um dos trechos, escrito em 1909, por Kropotkin, que deve ter influenciado o jovem Antonio em direção aos caminhos libertários:

Um levante social, todavia, não é ainda uma revolução, mesmo quando assume proporções tão terríveis como a da sublevação dos camponeses russos em 1773, sob a bandeira de Pugatchov. Uma revolução é infinitamente mais do que uma série de insurreições nos campos e nas cidades. É mais que uma simples luta de partidos, por muito sangrenta que esta seja, mais que um combate nas ruas, e muito mais que uma simples mudança de governo, como a França realizou em 1830 e 1848. Uma revolução é o derrubamento rápido, em poucos anos, de instituições que levaram séculos a enraizar-se e que pareciam tão estáveis, tão imutáveis, que os mais ardentes reformadores mal ousavam atacá-las nos seus escritos. É a queda, o despedaçamento, num reduzido número de anos, de tudo quanto constituía, até então, a essência da vida social, religiosa, política e econômica de uma nação, o derrubamento das ideias e das noções correntes sobre as complicadíssimas relações entre todas as unidades do rebanho humano. É, finalmente, o desabrochar de novas concepções igualitárias quanto ao comércio entre cidadãos — concepções que breve se tornam realidades e começam, daí por diante, a irradiar-se pelas nações vizinhas, convulsionando o mundo e dando ao século seguinte a sua senha, os seus problemas, a sua ciência, as linhas gerais de desenvolvimento econômico, político e moral.

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Arquivado em Década 1950

Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista – CDPA (2)

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O CDPA tinha em algumas de suas reuniões semanais, nas manhãs de domingo, até 20 pessoas, na sala 505, do Edifício Themis, na Praça da Sé, em Salvador.

Naquelas reuniões se discutia de tudo. E, diferentemente de outras organizações políticas, mesmo os mais novos frequentadores tinham direito (e dever) de opinar. Opinar, fosse sobre a política brasileira, sobre a possibilidade de fumar maconha durante a reunião, ou acerca dos temas que deveriam ser publicados no jornal O Inimigo do Rei.

Meados dos anos 1980. Em determinado momento um dos participantes via a necessidade de publicar no O Inimigo do Rei, em sua última página, para o que os anarquistas diriam SIM (já que na primeira página apareciam as caras dos políticos aos quais se diria NÃO). A discussão foi acirrada: “As pessoas não estão acostumadas com a palavra Autogestão. Se aparecer esse termo também quero que apareça Sorvete de Mangaba”. Tanto a Autogestão quanto o Sorvete de Mangaba estão lá, na vigésima edição do jornal, de agosto de 1987.

O CDPA durante toda sua vida se confundiu com o jornal O Inimigo do Rei, e foi dele que influenciou seus participantes em um ponto que o mantém único, como diz o jornalista Tony Pacheco:

“Eliminou a diferença de ‘classes’ que há, normalmente, em todo veículo de imprensa. Os burgueses são donos das opiniões e da linha política. Os jornalistas , empregados dos primeiros, escrevem sobre o que é permitido. Os gráficos imprimem e os jornaleiros vendem os exemplares. No jornal O Inimigo do Rei, as pessoas que elaboravam os artigos eram as mesmas que editavam, faziam a revisão na gráfica e depois saiam vendendo, como jornaleiros, cada exemplar, nas ruas, nas fábricas e universidades. E, também, eram as mesmas que saiam correndo da polícia na época da repressão, como aconteceu em Feira com um dos números do jornal”.

Mas foi ali no CDPA que também surgiram a Federação Libertária Estudantil e o Núcleo Pró-COB de Salvador, e tantas outras pequenas experiências de ação direta e autogestão, entre 1984 e 1992.

Dentre a infinidade de ações diretas estava a publicação de panfletos abordando a política brasileira. Em uma das reuniões dominicais, por exemplo, resolveu-se analisar o Plano Cruzado, durante o governo de José Sarney. Ali era lançado o panfleto Os Anarquistas Analisam o Plano Cruzado, que está digitalizado no topo desta postagem.

E ao final do Panfleto os anarquistas propunham:

* Repúdio a qualquer pacote;

* Organização dos TRABALHADORES em SINDICATOS desvinculados dos Partidos e do Governo;

* Pela reorganização da C.O.B. (Confederação Operária Brasileira);

* Organização da população em ASSOCIAÇÕES desvinculadas da Igreja e dos Partidos;

* Pressionar pacificamente o governo para impedir a DITADURA ECONÔMICA do PMDB e partidos coligados.

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Arquivado em Década 1980, Década 1990, Organizações

Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista – CDPA (1)

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CDPA-Revolução Espanhola

O Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA) foi criado em 1984, quando os anarquistas que publicavam o jornal O Inimigo do Rei , saíram do espaço onde se reuniam nas proximidades do Relógio de São Pedro, em Salvador, para se deslocarem até a Praça da Sé, no Edifício Themis, onde continuariam se reunindo até começo dos anos 1990.

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18 de setembro de 2012 · 19:55

Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (4)

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No final dos anos noventa o grupo da APPL publicava o boletim O Libertário. Os temas do boletim eram decididos em reuniões que aconteciam bimestral ou mensalmente. Em Março de 1997 o assunto escolhido foi Feminismo e Anarquismo, e um belo texto da espanhola Josefa Martin Luengo, uma das participantes mais ativas da Escola Paideia, em Merida. Mas havia um texto no boletim que dizia respeito a um tema que era (e ainda é) de grande repercussão no movimento anarquista: Uma Federação Anarquista Brasileira. Chegavam notícias de São Paulo, Rio Grande do Sul e outros estados, onde anarquistas se organizavam no intuito de construir aquela federação. Segue o texto de um dos “militantes” da APPL sobre a recepção dessa ideia em Salvador:

Alvissareira Notícia

… Esta que chega do sul do país, com o objetivo de organizar os grupos anarquistas existentes em território brasileiro: UMA ENTIDADE FEDERATIVA. Eis uma lacuna que o movimento não deve se furtar em preencher, pois faz-se necessário em função de uma melhor intervenção no tecido social no qual, mesmo que a contra gosto, estamos inseridos. E também porque, necessitamos de urna maior divulgação dos ideais ácratas nessa sociedade estratificada, demagógica, reacionária e hipócrita e que em tese devemos combater, tanto na prática corno teoricamente.

Por acreditarmos que em sã consciência, não se pode negar a importância de urna FEDERAÇÃO, seja ela a nível local, estadual, nacional, continental ou planetário, é que tentaremos colaborar com algumas observações que julgamos pertinentes ante este processo de constituição que ora se inicia.

Para sua consecução, colocamos como primordial um estreito intercâmbio entre os grupos verdadeiramente constituídos. Isso no sentido de conhecermos os nossos futuros consortes, melhor explicitando, as suas propostas organizacionais, as concepções que norteiam a sua política interna e externa, e os métodos de ação para inserção na sociedade. Já que as informações sobre os grupos são por demais escassas, esporádicas e superficiais, o que acarreta o traçado de um perfil impreciso sobre a magnitude, composição e a estrutura de cada um dos prováveis federados.

Feito esse primeiro contato com os diversos grupos, teremos condições de discutir propostas concernentes à organização de uma entidade nacional, isso numa rede fechada entre os grupos previamente contatados. Nessa rede poderemos conhecer as diversas opiniões e propostas que irão contribuir para a organização do primeiro encontro de preparação de uma estrutura federativa nacional e que pode nortear o nosso congresso de constituição.

Nesse momento, conclamamos todos os grupos a arregaçar as mangas e centrar esforços na viabilização dessa alvissareira proposta: uma FEDERAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA.

O BRUXO

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Arquivado em Década 1990, Jornalismo, Organizações