Arquivo do mês: setembro 2012

Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (3)

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Em 04 de Março de 1994 os anarquistas que constituíam a APPL começaram uma grande experiência em suas vidas.

Alugaram e ocuparam uma casa de três quartos em uma transversal da Rua Melo Moraes Filho, no bairro da Fazenda Grande do Retiro, para trabalhar com o que eles consideravam de grande importância naquele momento: A Inserção Social.

Um espaço autogestionário em um bairro de periferia teria o objetivo de mostrar a massa da população como funcionava uma organização anarquista, além de servir de local de aprendizado do próprio viver anarquista, com as facilidades e dificuldades que pensadores libertários sempre discutiram, e muita gente já havia vivido em várias histórias da humanidade, seja na Espanha de 1936, seja na Colônia Cecília, na década de 90 do Século XIX, no Estado do Paraná.

Montaram-se Bancas, que funcionaram timidamente. Criaram-se oficinas de serigrafia, teatro, costura. E abriu-se a Biblioteca Emma Goldman, com aproximadamente 1000 volumes. Assuntos diversificados: Política, Sociologia, História, Sociologia, Ficção Científica, e até Anarquismo, representado por uma faixa de 200 livros (em português, espanhol, francês e inglês). Mostras de filmes com debates, etc.

Para servir como caminho a ser seguido no desenvolvimento do espaço da Fazenda Grande, os membros da APPL construíram o seu ABC (Acordos Básicos Comuns). No ABC constavam como seriam as Reuniões, como se dariam os trabalhos internos, de limpeza, de manutenção, etc.  Como se dariam a entrada de novos membros. Ou como seria o comportamento dos membros enquanto estivessem na casa. E esse último tópico deu o que falar.

O entendimento inicial de que a tal inserção dentro do bairro teria de contemplar alguns limites na vivência dentro da casa começou a se esfacelar quando algumas regras foram sendo discutidas na construção do ABC….

Alguns dos limites que se desejava dar dentro do espaço eram consequência de outras experiências como a da Mata Escura, formada por um grupo de punks anos antes, além da própria história de alguns dos participantes que atuavam coletivamente em sindicatos ou outras associações.

Proibição de bebidas dentro da casa, incluindo os dias de Reuniões; Proibição de hospedagem de anarquistas de outras localidades que estivessem passando por Salvador; Proibição de festas não deliberadas por Assembleias. Estas foram algumas das decisões que tiveram maior repercussão negativa quanto a união do grupo. Enquanto um grupo majoritário queria esses limites como meio de evitar que a própria comunidade em redor da casa começasse a ver o espaço com “maus olhos”, outra parte dos membros considerava as proibições como descaracterização do anarquismo, gerando um paradoxo na base da sua existência.

As discussões, as vezes violentas, demoraram meses. E prejudicaram o andamento das ações que se queriam tomar. Após alguns meses as bancas de reforço escolar se extinguiram, as oficinas minguaram. Os participantes foram se afastando. Dos 11 “fundadores”, sobraram, no mês de Março de 1995, apenas 3 esfarrapados e cansados militantes.

Nos últimos meses poucas ações sobraram aos poucos militantes restantes. Uma ou outra palestra em Escolas vizinhas. Mostra de filmes (numa grande TV de 29″). A própria Biblioteca se encontrava às moscas, pois, em depoimento de uma das moradoras que frequentava o espaço, verifica-se que os vizinhos não se identificavam com o visual de anarquistas que também visitavam o local. Essa era apenas uma das complexas dificuldades para por em prática a tal Inserção Social do Anarquismo.

A experiência na Fazenda Grande do Retiro terminava, mas a APPL teimou em continuar existindo. Aos poucos, novos membros foram aparecendo. As reuniões aos Domingos foram transferidas para as casas dos membros do grupo (em alguns domingos quase o mesmo quantitativo anterior). A nova formação gerou um boletim: O Libertário. Falaremos deste boletim nas próximas postagens.

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Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (2)

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Um ano após o surgimento da APPL, seus participantes, na faixa de 11 indivíduos, já publicavam um pequeno boletim.  Em 1994, após conversas e deliberações nas reuniões aos domingos, no pátio da Biblioteca Pública dos Barris, eles decidem montar um espaço libertário no bairro de Fazenda Grande do Retiro, tentando desenvolver um trabalho de inserção social. Mas isso é assunto para a próxima postagem. Por hoje fiquem com o texto transcrito do boletim digitalizado acima.

Não podemos esperar que a transformação social venha como mais um pacote do governo, como uma medida de choque, com a qual dormimos num país e acordamos em uma federação de grupos.

… Não dá para imaginar, não é ?

Então precisamos construir uma nova sociedade de maneira gradativa. Estamos em uma guerra, contra o Estado, na qual ainda restam várias batalhas.

Não podemos ficar pregando AÇÃO DIRETA, AUTOGESTÃO E FEDERALISMO, e esperarmos que o nosso discurso mude, por si só, esta situação em que vivemos. Temos que arregaçar as mangas e encamparmos lutas concretas pela vida, pela paz, pela redução de jornada de trabalho, pelo fim das obrigações, como serviço militar, eleições, etc.

Constatamos assim, que a AÇÃO DIRETA, a qual tanto propagandeamos, nunca será possível se não a vivenciarmos em nosso dia-a-dia.

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Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (1)

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Esse foi o primeiro material de propaganda do que seria a Associação em Prol do Pensamento Libertário (APPL), nascida nos corredores da Universidade Católica de Salvador, em 1992, com a participação de estudantes de História e Filosofia. Posteriormente novos participantes foram aparecendo nas reuniões da Biblioteca Central, no bairro dos Barris, em Salvador.

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O Anarquismo, de Kropotkin

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Há um intervalo de tempo onde existe nada ou quase nada de documentação sobre o anarquismo na Bahia.

Esta situação compreende o período entre os anos 1930 e 1970.

Trazemos hoje aqui um dos poucos documentos onde se é possível perceber que quele intervalo de tempo, se não havia anarquistas, havia interesse no anarquismo em Salvador.

A edição de um livro de Peter Kropotkin pela Progresso Editora de Salvador, em 1954. Vejam acima parte dele digitalizado, e logo adiante um dos trechos do texto de Kropotkin.

O ANARQUISMO

Sua Filosofia — Seu Ideal

(Conferência que o autor deveria ter realizado a 6 de Março de 1896 em Paris e que não o foi por proibição da policia parisiense. )

Não foi sem uma certa hesitação que nos decidimos a tomar por tema desta conferência a filosofia e o ideal do Anarquismo. E diremos porquê. Não são poucas, infelizmente, as pessoas que estão persuadidas que o anarquismo não passa de um amálgama de ideias visionárias acerca do futuro, cifrando-se o seu ideal num desconcertante incitamento à destruição de toda a civilização que atualmente a humanidade usufrui. Para abrir uma clareira neste enredado cipoal de preconceitos, produtos natos da nossa falsa educação, cumpriria, de certo, entrar em cogitações mais elevadas das que uma simples conferência comporta. Não nos surpreendem, todavia, aqueles conceitos; não é verdade que ainda há poucos anos toda a imprensa europeia sustentava que a única filosofia do anarquista era o extermínio de tudo e o seu único argumento a violência?

Recentemente, porém, tanto se tem falado de anarquismo e anarquistas, tal tem sido a impressão causada sobre o público que este, afinal, acabou por querer saber em que consistiam as nossas doutrinas e resolveu-se a ler e a discutir o incriminado pensamento. Daí, não raras vezes, alguns indivíduos mais ousados entregarem-se ao estudo acurado da questão, o que já significa alguma coisa para nós, no momento atual, constituindo o fato ganho de causa. Hoje já não é difícil admitir-se que o anarquista tenha um ideal, há até quem o ache excelente, grandioso mesmo, próprio, porém, somente para uma sociedade composta de gente de escol. Cabe agora perguntar: não será uma pretensão tola falar de uma filosofia numa matéria em que, segundo a opinião dos nossos melhores críticos, apenas há vislumbres de um futuro demasiado longínquo? Pode, porventura, o anarquismo ter o topete de reivindicar uma filosofia quando se recusa a reconhecer urna no socialismo de que aquele é originário ?

É exatamente a esta questão fundamental que vamos responder empregando o melhor de nossos esforços para, com toda a precisão e clareza, procurarmos resolvê-la . Na exposição e desenvolvimento deste assunto, afim de bem esclarecermos o que entendemos por filosofia do anarquismo, é provável que tenhamos de repisar um ou outro ponto já ventilado em uma conferência que fizemos em Londres, nos princípios do ano de 1893, e por tal, de antemão, contamos com a benevolência do auditório.

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Arquivado em Década 1950