Movimento Libertário de Pau da Lima (II)

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Mancha Negra_07_Nov.1996

O texto que segue é parte de um artigo maior que criei durante a graduação em jornalismo. No texto eu falava sobre o Jornal alternativo O Inimigo do Rei.

Mas as ideias postas ali servem também para boa parte da história da imprensa anarquista, incluindo a imprensa das organizações libertárias dos anos pós-ditadura, como, por exemplo, o Mancha Negra, digitalizado acima.

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Mas estamos hoje, a 30 anos de distância do início da publicação do jornal, e em um mundo complicado de se entender. E de sobreviver. A sociedade parece continuar a serviço de uma minoria, mas agora sem a necessidade de uma ditadura militar. E é esta minoria que detêm hoje a matéria-prima fundamental à existência dentro desta sociedade: a informação. Mesmo dentro da Internet, um campo ilusoriamente democrático, os grandes portais abocanham a maior parte da audiência, enquanto o status de pobreza destitui boa parte da população do seu uso.

Como aconteceu com a televisão, progressivamente, o capitalismo se encarrega de excluir ou marginalizar os espaços que contrariem as normas comerciais. Através de portais, banners, ou sistemas de busca que direcionam as preferências. Essa é uma previsão que não pode ser descartada… A existência de sociedades democráticas não estará assegurada a partir do nascimento de nenhum meio, mas sim com o surgimento de conquistas coletivas e na distribuição igualitária dos conteúdos informacionais.(1)

É pensando assim, e tentando retirar da minoria parte de seu poder, conseguido através da informação e do saber, que poderemos vislumbrar um mundo sem tantas diferenças econômicas.

Uma das possibilidades que temos para concretizar esta meta é através do reviver das histórias, normalmente esquecidas, de homens e mulheres que lutaram contra qualquer tipo de autoritarismo.

Daniel James revela sua preocupação em preservar esse tipo de memória social “dos oprimidos”. Até como forma de impedir uma perda coletiva de memória e tradição em uma conjuntura de reestruturação econômica e política tão perversa. E como referência a isto nos fala de um importante movimento de bases populares na Argentina, ocorrido em 1969:

… no ano passado na Argentina, um sindicalista disse-me que a maioria dos trabalhadores na sua empresa já não tinha a mais vaga idéia sobre o que o Cordobazo , tinha realmente sido. O Cordobazo havia se tornado um nome, uma forma vazia de conteúdo. A necessidade de fazer frente a essa sorte de amnésia parece evidente.(2)

Os autores de Os Baianos que Rugem, livro que aborda a vida de três outros nanicos existentes na Bahia na década de 70, confirmam essa visão, pois constataram “a profunda desinformação a respeito do fenômeno (imprensa alternativa) por parte das novas gerações”.(3)

Além do mais estamos vivendo hoje um tempo de certezas (quase) absolutas. Ou melhor, um tempo em que se aparentam mais certezas do que dúvidas. Onde, após o fim da União Soviética, até mesmo o fim da história já foi estabelecido, pelo filósofo americano Francis Fukuyama, ideólogo do neoliberalismo, para quem tínhamos chegado “ao ponto final da evolução ideológica e à universalização da democracia liberal ocidental como forma final de governo“. É o tempo de algo sombrio ao qual já se nomeou de Pensamento Único. O diretor do jornal Le Monde Diplomatic, Ignacio Ramonet, menos apocalíptico do que realista, aponta o que este tipo de situação traz consigo:

Nas democracias atuais, cada vez mais cidadãos livres sentem-se atolados, lambuzados por um tipo de doutrina viscosa que, imperceptivelmente, envolve todo raciocínio rebelde, inibi-o, desorganiza-o, paralisa-o e termina por asfixiá-lo. Essa doutrina constitui o “pensamento único”, única autorizada por um invisível e onipresente controle de opinião.(4)

Mostrando que uma visão crítica do mundo não serve de nada se nos leva a um beco sem saída, o próprio Ramonet participando do 5º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, em 2005, afirmou, em entrevista a João Alexandre Peschanski, que:

Tudo está indicando que outro tipo de comunicação é possível, que responda mais às necessidades da população do que aos interesses das grandes empresas. Neste caso, poderia pensar-se em um meio de coletar toda essa informação que é produzida e disseminá-la de modo mais efetivo. Quando cada um trabalha por si, somos muitos fracos, é preciso que todos trabalhemos em conjunto.(5)

Verificamos, assim, a importância de discutir sobre mídias de resistência numa perspectiva não só acadêmica do ponto de vista de sua história, mas também ao nível de uma práxis que deve permitir a aqueles que se embrenham na arte do jornalismo se colocarem do lado da população em nome da democracia, indo de encontro a qualquer ação que possa vir a reduzir as liberdades de viver e de se expressar.

Estudar e dar visibilidade a um dos jornais que se encontravam dentro desta perspectiva e definição de mídia alternativa, e de combate a atual situação do mundo, é fazer relembrar justamente a trajetória deste sentimento de resistência que se sobrepõe ao medo de lutar contra o autoritarismo e contra o conformismo.

Numa sociedade onde o poder continua nas mãos de poucos e que é usado para manipular a vida de todo um país, é imprescindível que haja uma ‘re’-ação a este monopólio de autoridade por meio da palavra escrita, da imprensa alternativa que defenda igualdade social, de forma a incentivar uma luta pelo direito de cada indivíduo fazer o que quiser, na hora que achar conveniente, apenas respeitando os seus limites e o direito que o outro também tem dentro daquele espaço que é comum a todos que ali convivem, o que efetivamente estará efetivando a autodisciplina e o respeito pelos seus semelhantes.

Portanto, num momento como esse, em que nós vivenciamos uma traumática derrocada das utopias, não há nada melhor do que rebuscar na História um pouco de antagonismo. E particularmente quando utilizamos alguma parte dela em que homens e mulheres se unem, para com uma pitada de humor, e outras de ironia e coragem, tentarem destronar o Rei.


(1) SANTOS, Patrícia Diniz. Mídia digital: dos princípios da liberdade à democracia ilusória. Disponível em http://www.uff.br/mestcii/diniz.htm, acessado em 15 de Abril de 2007.

(2) JAMES, Daniel. O que há de novo? O que há de velho? Os parâmetros emergentes da história do trabalho latino-americana. IN: ARAÚJO, Ângela M.C. Trabalho, Cultura e Cidadania. São Paulo: Scritta, 1997. Pag. 137.

(3) VILELA, G.; FALCÓN, G. Os Baianos que Rugem: A Imprensa Alternativa na Bahia. Salvador: Edufba, 1996. Pag.11.

(4) RAMONET, Ignácio. O Pensamento Único. In MALAGUTI, Manoel (Org.). A Quem Pertence o Amanhã: Ensaios sobre o Neoliberalismo. São Paulo: Edições Loyola, 1997. Pag.23.

(5) RAMONET, Ignácio. Entrevista a João Alexandre Peschanski. Disponível em http://www.piratininga.org.br/artigos/2005/61/ramonet-bdf.html, acessado em 12 de Abril de 2007.

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