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Núcleo Pró COB-AIT (2)

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As ações e propaganda dos anarquistas que construíam o movimento Pró COB-AIT frequentemente entravam em choque com as atividades dos partidos e organizações de esquerda, como PT, CUT, etc. Não é novidade que anarquistas e marxistas não nutrem qualquer amor entre eles. Desde as reuniões da Associação Internacional dos Trabalhadores em finais do Séc.XIX, Marx e Bakunin digladiavam-se em nome de suas ideias. Após a Revolução Russa, tanto Lenin, quanto Trotsky, ordenavam, sem qualquer arrependimento, o fuzilamento de anarquistas.

Na imagem acima, a direita (ou melhor dizendo, um dos órgãos de imprensa pertencentes a elite baiana) se aproveita desta disputa “secular” para tentar desmantelar uma greve geral que aconteceria dias depois daquele editorial. E para isso usa o discurso de um dos militantes anarquistas em Salvador, dado em entrevista.

Denunciando como fascistas instrumentos como os piquetes que param o trabalho pela violência e não através da adesão consciente e voluntária dos empregados, a COB diz de que forma e em nome de que pretende atuar no movimento sindical. Para ela, os motivos para qualquer protesto devem relacionar-se diretamente ao local de trabalho, dizendo respeito a vida dos empregados e não com as pautas oriundas de Brasília. Em razão disto, pouca diferença faz haver eleição direta ou indireta no País, um formalismo que nunca alterou profundamente a situação do trabalhador, penalizado, isto sim, pela queda constante de seu poder aquisitivo. O entendimento do dirigente sindical da COB traduz o que seria uma pauta voltada para os interesses imediatos dos trabalhadores, em seu setor de trabalho.

Não é difícil se perceber do trecho retirado do Editorial do jornal A TARDE de 4 de Agosto de 1987, como a Grande Imprensa, usa e abusa de interpretações das entrevistas que fazem, em nome de uma “Imprensa Imparcial”. Afirmar que uma organização anarquista (e os núcleos Pró COB-AIT eram anarquistas, em sua gênese) teria suas pautas voltadas para os interesses imediatos de alguma categoria de seres humanos ou é inocência e ignorância ao extremo, ou, pelo contrário, é uma absoluta falta de caráter, usando de subterfúgios políticos para neutralizar ambos os personagens à sua esquerda.

Sábado trarei mais histórias sobre os núcleos Pró COB-AIT.

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Arquivado em Década 1980, Organizações

Campanha do Voto Nulo em 1988 (3)

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Comunistas de partidos como PCdoB ou PCB, e muita gente ortodoxa dentro do PT, sempre consideraram o anarquismo como uma espécie de Utopia, às vezes adjetivada de pequeno-burguesa, às vezes de contra-revolucionária. E, em geral, tacha-se anarquistas de pouco, ou nada, organizados.

Josef Stalin, apenas como exemplo, criticava (e chegou a assassinar) anarquistas porque eles teimavam em não entender que existem dois tipos de Ditadura. Lendo hoje um texto escrito por ele em 1907 não podemos deixar de achar uma situação tragicômica:

É claro que há duas espécies de ditadura. Há a ditadura da minoria, a ditadura de um pequeno grupo, a ditadura dos Trepov e Ignatiev, dirigida contra o povo. À frente de uma tal ditadura, figura ordinariamente uma camarilha, que adota decisões secretas e aperta a corda no pescoço da maioria do povo. E há a ditadura de outro gênero, a ditadura da maioria proletária, a ditadura da massa, dirigida contra a burguesia, contra a minoria. Aqui, à frente da ditadura se acha a massa, aqui não há lugar nem para uma camarilha, nem para as decisões secretas, aqui tudo se faz à luz do dia, na rua, nos comícios, e isso porque é a ditadura da rua, da massa, uma ditadura dirigida contra toda classe de opressores. (Anarquismo ou Socialismo?).

Pois bem.

A Campanha pelo Voto Nulo em 1988 talvez venha a ser um indício de que essa “falta de organização” é na verdade uma propaganda daqueles que detestam os anarquistas por outros motivos: Talvez seja porque os anarquistas adoram mostrar o “Lado B” das revoluções que eles defendem, ou porque os anarquistas têm uma visão mais irônica e sarcástica do mundo, ou simplesmente porque os anarquistas não têm qualquer simpatia pelo autoritarismo, lutando contra ele na família, na escola, na fábrica ou mesmo dentro de um ônibus, em uma cotidiana viagem de um bairro a outro.

Em 1988 os anarquistas de Salvador conseguiram até mesmo montar uma “coletiva” com a imprensa.

O encontro entre anarquistas do Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA) e do Núcleo Pró-COB de Salvador com jornalistas de A Tarde e Tribuna da Bahia ocorreu em um barzinho na Praça da Sé, pertinho de onde ficava a sede da organização acrata, no 5º Andar do Edifício Themis.

Seguem as digitalizações das matérias resultantes do encontro com os repórteres dos dois jornais.

No texto do repórter da Tribuna da Bahia não é difícil perceber uma certa antipatia com relação ao que pensam os anarquistas. O questionamento de que os anarquistas não estão preocupados “com o que vai acontecer no país se os seus cidadãos decidirem não mais escolher seus representantes no governo”, é, no mínimo, simplista e equivocado.

O texto do jornal A Tarde não tentou emitir qualquer juízo de valor sobre as ideias dos anarquistas entrevistados.

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Arquivado em Ações, Década 1980, Organizações

Campanha do Voto Nulo em 1988 (2)

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A burguesia quando se sente ameaçada por alguma ação tomada pela sociedade, que não tenha sido pensada por ela, usa seus meios de comunicação para neutralizar aquelas ações.

É óbvio que para acreditarmos nessa ideia temos que crer na existência de algumas categorias: burguesia, luta de classes, etc.

Em 1988 grande parte da grande mídia, de propriedade de famílias burguesas, encontrava-se apoiando a redemocratização do país. Não nos esqueçamos que nos primeiros anos da década de 1980 muita gente ia para as ruas mostrar seu descontentamento em redor de todo o Brasil. Seja em greves contra o arrocho salarial, seja em manifestações contra a carestia, ou mobilizações contra a Ditadura Militar, dentre outros motivos. Muitas dessas mobilizações terminaram em violência, como o quebra-quebra dos ônibus de Salvador em Agosto de 1981, por exemplo.

O retorno às eleições diretas para Governadores em 1982, e a tentativa de eleição direta para Presidente entre 1983 e 1984 caíram como uma luva para as elites, que precisavam colocar a população no caminho da “paz”.

Seria preciso um instrumento duradouro para por fim, ou acalmar, as mobilizações com claro viés radical. A revista IstoÉ, em seu editorial na edição de 30 de novembro de 1983, parecia prever qual seria:

O título eleitoral, transformado em fetiche, assumiu para o brasileiro o valor emblemático, mobilizador, de um direito elementar de que lhe foi despojado. Algo indiscutível em torno do que as pessoas podem se unir, acima de suas eventuais diferenças políticas, pois ninguém em boa-fé duvida que somente a renovação pelo voto direto poderá salvar o país…

Quando anarquistas de Salvador decidem se reunir com um grupo de classe média insatisfeito com a generalização da corrupção na política baiana, políticos se unem aos órgãos midiáticos da cidade para contra-atacar.

Em 17 de Outubro de 1988, mesmo dia que Manoel Castro criticava o Voto Nulo no jornal A TARDE, sai na Coluna Política, no mesmo jornal, o seguinte:

O alto índice de indecisos ainda anotado junto à população de Salvador tem estimulado os grupos que trabalham pelo voto nulo – os tradicionais (se é que podem assim ser chamados) anarquistas e um movimento novo, de definição bastante nebulosa – pregando a omissão da sociedade no instante em que esta participação é da maior importância para a consolidação do regime democrático. É preciso salientar que esses grupos têm trabalhado num terreno dos mais férteis, devido a descrença que grassa junto à população, não apenas em relação aos políticos, mas sim, quanto ao comportamento dos homens públicos de modo geral. No entanto, a pregação pela omissão é das mais perigosas porque conduz diretamente a um beco sem saída e só interessa aos que defendem a teoria do “quanto pior, melhor”.

Sábado postaremos mais informações sobre a Campanha do Voto Nulo de 1988. Incluindo matérias de jornais que circularam em Salvador trazendo a opinião dos anarquistas sobre aquela Campanha.

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Campanha do Voto Nulo em 1988 (1)

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“Alguns indicadores da indiferença estão nas ruas. Em eleições passadas, é verdade, o voto branco e o voto nulo por erro do eleitor já tomavam proporções preocupantes. A despeito disso, o órgão superior da Justiça Eleitoral nunca somou os totais nacionais a ponto de permitir um estudo, por parte dos especialistas, do volume de votos nulos. O indicador novo é que o apelo ao voto nulo não parte hoje só de minorias anarquistas. Outros segmentos estao no mesmo caminho”.

Logo acima está trecho do Editorial do jornal A TARDE de 14 de Outubro de 1988, há poucas semanas da Eleição para a prefeitura de Salvador naquele ano.

Os principais candidatos naquela eleição foram: Fernando José (PMDB), Virgildásio de Senna (PSDB), Manoel Castro (PFL) e Zezéu Ribeiro (PT).

No editorial pode ser medida a preocupação dos órgãos de notícias que representavam as elites baianas com a possibilidade dos Votos Nulos alcançarem um grande percentual. E, até com um certo respeito, eles citam os anarquistas entre os grupos que, classicamente, defendem o Voto Nulo.

Os anarquistas, no ano de 1988, distribuídos entre grupos de trabalhadores (no núcleo Pró-COB), ou no Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista-CDPA, dentre outros, resolveram atacar de vez a Democracia Representativa lançando uma Campanha pelo Voto Nulo.

Por coincidência, alguns grupos de classe média também resolveram se mobilizar em defesa da anulação do voto.

Obviamente os dois grupos não tinham os mesmos objetivos gerais. Mas conseguiram, pelo menos uma vez, no intervalo entre Outubro e a data da eleição, unir forças numa Carreata.

Nas próximas postagens vou trazer mais material sobre essa Campanha.

Um abraço, e até a Terça-Feira que vem.

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