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Movimento Anarco Punk (II)

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Informação Alternativa_02_1996

O segundo boletim Informação Alternativa do MAP continua sua propaganda sobre o anarquismo, além das críticas contra o sistema capitalista.

Além disso traz um ótimo texto com pequeno histórico do anarquismo em Salvador desde O Inimigo do Rei até a criação do MAP.

Segue texto encontrado no verso daquele boletim, fazendo pequeno resumo da história do Movimento Punk em Salvador até 1996.

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Mais Seis Anos de Organização e Luta

Com o final do jornal “Inimigo do Rei” e o fechamento do CDPA (Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista) em 1989 o anarquismo em Salvador ficou órfão de grupos que levantassem sua bandeira de forma militante e revolucionária. Mas, ao mesmo tempo sentia-se no ar um clima favorável à criação de novos grupos. Em 1989 surgiu a FARPA, que seria o pioneiro dos vários grupos de bairro que apareceriam depois. Porém o estopim de tudo que aconteceu foi a passeata “Caminhada pela Liberdade” em 06.01.1990, onde participaram cerca de 40 pessoas de vários bairros de Salvador, e dela resolveu-se criar o Movimento Punk Libertário, que fez sua primeira reunião semanal em 14.06.1990, dando início a uma história de luta, vontade, altos e baixos.

Naquela época tudo ao nosso redor fazia lembrar dos lugares de onde viemos, do nosso dia a dia estimulante para nos agarrarmos a luta com unhas e dentes, olhando um nos olhos do outro com a certeza do que queríamos e consciência do papel importante que tínhamos a cumprir.

Sem lengalenga, partimos para a ação direta com manifestações, panfletagem, concentrações, Campanhas, palestra (em faculdades, escolas, associações de moradores), seminários, debates, boletins e acampamentos, tudo tão intenso que tornou-se comum a presença Punk nas ruas de Salvador.

Todos esses trabalhos começaram a dar resultado de 1992 para 1993, com a multiplicação dos grupos para FARPA, MOV.PUNK LIBERTÁRIO, EXPLORADOS, ANARQUIA JÁ, MOV.PUNK DE BROTAS, MARS (Mov.Anti-Resistência da Sociedade), FAZENDA GRANDE COMUNIDADE LIBERTÁRIA, MOVIMENTO RAUL SEIXISTA, MOV.LIBERTÁRIO DE PAU DA LIMA, MOV.PUNK DE SÃO CRISTOVÃO, COMUNIDADE LIBERTÁRIA 11 DE NOVEMBRO, MOV.ANARCO-ESTUDANTIL.

Quase todos estes grupos uniram-se na FAMES (Federação Anarquista Metropolitana de Salvador) que deu ao movimento uma nova dinâmica, poque conseguiu unificar vários grupos e conduzir a luta com maior participação.

A essa altura o Movimento Punk Libertário se encontrava com cerca de duzentos militantes e uma frequência de 80 pessoas por reunião, resultando na tradicional passeata de 7 de setembro de 1991. Quando quase conseguimos estragar a festa de “Independência do Brasil”.

Esse crescimento extraordinário nos pegou de surpresa e completamente despreparados para organizar um movimento tão numeroso. Então os problemas começaram a surgir porque éramos muito ingênuos e inexperientes com luta social para compreender que os maiores inimigos estavam perto de nós, em nosso meio, em nossas entranhas, no ego, na intolerância, no fascismo, na brutalidade, na falta de iniciativa, na nossa incapacidade de cortar o cordão umbilical e a gangrena contaminada pelo germe.

Em 1994 a maioria dos grupos já tinham acabado, mas o Movimento Punk Libertário continuou firme, porém com o número de militantes reduzido. Para afirmar nossos princípios mudamos o nome para o MAP (Movimento Anarco Punk) e elaboramos um boletim de orientação, que provocou uma divisão e a criação do CARP (Coletivo de Ação e Resistência Punk). Em 1994 também foi criado o primeiro grupo Anarco-feminista, o ALMA (Associação Livre de Mulheres Anarquistas). Com pouca duração, mas que marcou o fim da passividade feminina no Movimento. Outro grupo anarco-feminista foi o CIA (Coletivo Inimigas da Autoridade), criado em 1996. Atualmente estão ativos em Salvador o Movimento Anarco Punk, o Mov. Libertário de Pau da Lima, a Associação em Prol do Pensamento Libertário e o Coletivo Subverta.

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Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (4)

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No final dos anos noventa o grupo da APPL publicava o boletim O Libertário. Os temas do boletim eram decididos em reuniões que aconteciam bimestral ou mensalmente. Em Março de 1997 o assunto escolhido foi Feminismo e Anarquismo, e um belo texto da espanhola Josefa Martin Luengo, uma das participantes mais ativas da Escola Paideia, em Merida. Mas havia um texto no boletim que dizia respeito a um tema que era (e ainda é) de grande repercussão no movimento anarquista: Uma Federação Anarquista Brasileira. Chegavam notícias de São Paulo, Rio Grande do Sul e outros estados, onde anarquistas se organizavam no intuito de construir aquela federação. Segue o texto de um dos “militantes” da APPL sobre a recepção dessa ideia em Salvador:

Alvissareira Notícia

… Esta que chega do sul do país, com o objetivo de organizar os grupos anarquistas existentes em território brasileiro: UMA ENTIDADE FEDERATIVA. Eis uma lacuna que o movimento não deve se furtar em preencher, pois faz-se necessário em função de uma melhor intervenção no tecido social no qual, mesmo que a contra gosto, estamos inseridos. E também porque, necessitamos de urna maior divulgação dos ideais ácratas nessa sociedade estratificada, demagógica, reacionária e hipócrita e que em tese devemos combater, tanto na prática corno teoricamente.

Por acreditarmos que em sã consciência, não se pode negar a importância de urna FEDERAÇÃO, seja ela a nível local, estadual, nacional, continental ou planetário, é que tentaremos colaborar com algumas observações que julgamos pertinentes ante este processo de constituição que ora se inicia.

Para sua consecução, colocamos como primordial um estreito intercâmbio entre os grupos verdadeiramente constituídos. Isso no sentido de conhecermos os nossos futuros consortes, melhor explicitando, as suas propostas organizacionais, as concepções que norteiam a sua política interna e externa, e os métodos de ação para inserção na sociedade. Já que as informações sobre os grupos são por demais escassas, esporádicas e superficiais, o que acarreta o traçado de um perfil impreciso sobre a magnitude, composição e a estrutura de cada um dos prováveis federados.

Feito esse primeiro contato com os diversos grupos, teremos condições de discutir propostas concernentes à organização de uma entidade nacional, isso numa rede fechada entre os grupos previamente contatados. Nessa rede poderemos conhecer as diversas opiniões e propostas que irão contribuir para a organização do primeiro encontro de preparação de uma estrutura federativa nacional e que pode nortear o nosso congresso de constituição.

Nesse momento, conclamamos todos os grupos a arregaçar as mangas e centrar esforços na viabilização dessa alvissareira proposta: uma FEDERAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA.

O BRUXO

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Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (3)

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Em 04 de Março de 1994 os anarquistas que constituíam a APPL começaram uma grande experiência em suas vidas.

Alugaram e ocuparam uma casa de três quartos em uma transversal da Rua Melo Moraes Filho, no bairro da Fazenda Grande do Retiro, para trabalhar com o que eles consideravam de grande importância naquele momento: A Inserção Social.

Um espaço autogestionário em um bairro de periferia teria o objetivo de mostrar a massa da população como funcionava uma organização anarquista, além de servir de local de aprendizado do próprio viver anarquista, com as facilidades e dificuldades que pensadores libertários sempre discutiram, e muita gente já havia vivido em várias histórias da humanidade, seja na Espanha de 1936, seja na Colônia Cecília, na década de 90 do Século XIX, no Estado do Paraná.

Montaram-se Bancas, que funcionaram timidamente. Criaram-se oficinas de serigrafia, teatro, costura. E abriu-se a Biblioteca Emma Goldman, com aproximadamente 1000 volumes. Assuntos diversificados: Política, Sociologia, História, Sociologia, Ficção Científica, e até Anarquismo, representado por uma faixa de 200 livros (em português, espanhol, francês e inglês). Mostras de filmes com debates, etc.

Para servir como caminho a ser seguido no desenvolvimento do espaço da Fazenda Grande, os membros da APPL construíram o seu ABC (Acordos Básicos Comuns). No ABC constavam como seriam as Reuniões, como se dariam os trabalhos internos, de limpeza, de manutenção, etc.  Como se dariam a entrada de novos membros. Ou como seria o comportamento dos membros enquanto estivessem na casa. E esse último tópico deu o que falar.

O entendimento inicial de que a tal inserção dentro do bairro teria de contemplar alguns limites na vivência dentro da casa começou a se esfacelar quando algumas regras foram sendo discutidas na construção do ABC….

Alguns dos limites que se desejava dar dentro do espaço eram consequência de outras experiências como a da Mata Escura, formada por um grupo de punks anos antes, além da própria história de alguns dos participantes que atuavam coletivamente em sindicatos ou outras associações.

Proibição de bebidas dentro da casa, incluindo os dias de Reuniões; Proibição de hospedagem de anarquistas de outras localidades que estivessem passando por Salvador; Proibição de festas não deliberadas por Assembleias. Estas foram algumas das decisões que tiveram maior repercussão negativa quanto a união do grupo. Enquanto um grupo majoritário queria esses limites como meio de evitar que a própria comunidade em redor da casa começasse a ver o espaço com “maus olhos”, outra parte dos membros considerava as proibições como descaracterização do anarquismo, gerando um paradoxo na base da sua existência.

As discussões, as vezes violentas, demoraram meses. E prejudicaram o andamento das ações que se queriam tomar. Após alguns meses as bancas de reforço escolar se extinguiram, as oficinas minguaram. Os participantes foram se afastando. Dos 11 “fundadores”, sobraram, no mês de Março de 1995, apenas 3 esfarrapados e cansados militantes.

Nos últimos meses poucas ações sobraram aos poucos militantes restantes. Uma ou outra palestra em Escolas vizinhas. Mostra de filmes (numa grande TV de 29″). A própria Biblioteca se encontrava às moscas, pois, em depoimento de uma das moradoras que frequentava o espaço, verifica-se que os vizinhos não se identificavam com o visual de anarquistas que também visitavam o local. Essa era apenas uma das complexas dificuldades para por em prática a tal Inserção Social do Anarquismo.

A experiência na Fazenda Grande do Retiro terminava, mas a APPL teimou em continuar existindo. Aos poucos, novos membros foram aparecendo. As reuniões aos Domingos foram transferidas para as casas dos membros do grupo (em alguns domingos quase o mesmo quantitativo anterior). A nova formação gerou um boletim: O Libertário. Falaremos deste boletim nas próximas postagens.

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Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (2)

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Um ano após o surgimento da APPL, seus participantes, na faixa de 11 indivíduos, já publicavam um pequeno boletim.  Em 1994, após conversas e deliberações nas reuniões aos domingos, no pátio da Biblioteca Pública dos Barris, eles decidem montar um espaço libertário no bairro de Fazenda Grande do Retiro, tentando desenvolver um trabalho de inserção social. Mas isso é assunto para a próxima postagem. Por hoje fiquem com o texto transcrito do boletim digitalizado acima.

Não podemos esperar que a transformação social venha como mais um pacote do governo, como uma medida de choque, com a qual dormimos num país e acordamos em uma federação de grupos.

… Não dá para imaginar, não é ?

Então precisamos construir uma nova sociedade de maneira gradativa. Estamos em uma guerra, contra o Estado, na qual ainda restam várias batalhas.

Não podemos ficar pregando AÇÃO DIRETA, AUTOGESTÃO E FEDERALISMO, e esperarmos que o nosso discurso mude, por si só, esta situação em que vivemos. Temos que arregaçar as mangas e encamparmos lutas concretas pela vida, pela paz, pela redução de jornada de trabalho, pelo fim das obrigações, como serviço militar, eleições, etc.

Constatamos assim, que a AÇÃO DIRETA, a qual tanto propagandeamos, nunca será possível se não a vivenciarmos em nosso dia-a-dia.

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Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (1)

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Esse foi o primeiro material de propaganda do que seria a Associação em Prol do Pensamento Libertário (APPL), nascida nos corredores da Universidade Católica de Salvador, em 1992, com a participação de estudantes de História e Filosofia. Posteriormente novos participantes foram aparecendo nas reuniões da Biblioteca Central, no bairro dos Barris, em Salvador.

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