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Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista – CDPA (2)

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O CDPA tinha em algumas de suas reuniões semanais, nas manhãs de domingo, até 20 pessoas, na sala 505, do Edifício Themis, na Praça da Sé, em Salvador.

Naquelas reuniões se discutia de tudo. E, diferentemente de outras organizações políticas, mesmo os mais novos frequentadores tinham direito (e dever) de opinar. Opinar, fosse sobre a política brasileira, sobre a possibilidade de fumar maconha durante a reunião, ou acerca dos temas que deveriam ser publicados no jornal O Inimigo do Rei.

Meados dos anos 1980. Em determinado momento um dos participantes via a necessidade de publicar no O Inimigo do Rei, em sua última página, para o que os anarquistas diriam SIM (já que na primeira página apareciam as caras dos políticos aos quais se diria NÃO). A discussão foi acirrada: “As pessoas não estão acostumadas com a palavra Autogestão. Se aparecer esse termo também quero que apareça Sorvete de Mangaba”. Tanto a Autogestão quanto o Sorvete de Mangaba estão lá, na vigésima edição do jornal, de agosto de 1987.

O CDPA durante toda sua vida se confundiu com o jornal O Inimigo do Rei, e foi dele que influenciou seus participantes em um ponto que o mantém único, como diz o jornalista Tony Pacheco:

“Eliminou a diferença de ‘classes’ que há, normalmente, em todo veículo de imprensa. Os burgueses são donos das opiniões e da linha política. Os jornalistas , empregados dos primeiros, escrevem sobre o que é permitido. Os gráficos imprimem e os jornaleiros vendem os exemplares. No jornal O Inimigo do Rei, as pessoas que elaboravam os artigos eram as mesmas que editavam, faziam a revisão na gráfica e depois saiam vendendo, como jornaleiros, cada exemplar, nas ruas, nas fábricas e universidades. E, também, eram as mesmas que saiam correndo da polícia na época da repressão, como aconteceu em Feira com um dos números do jornal”.

Mas foi ali no CDPA que também surgiram a Federação Libertária Estudantil e o Núcleo Pró-COB de Salvador, e tantas outras pequenas experiências de ação direta e autogestão, entre 1984 e 1992.

Dentre a infinidade de ações diretas estava a publicação de panfletos abordando a política brasileira. Em uma das reuniões dominicais, por exemplo, resolveu-se analisar o Plano Cruzado, durante o governo de José Sarney. Ali era lançado o panfleto Os Anarquistas Analisam o Plano Cruzado, que está digitalizado no topo desta postagem.

E ao final do Panfleto os anarquistas propunham:

* Repúdio a qualquer pacote;

* Organização dos TRABALHADORES em SINDICATOS desvinculados dos Partidos e do Governo;

* Pela reorganização da C.O.B. (Confederação Operária Brasileira);

* Organização da população em ASSOCIAÇÕES desvinculadas da Igreja e dos Partidos;

* Pressionar pacificamente o governo para impedir a DITADURA ECONÔMICA do PMDB e partidos coligados.

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Arquivado em Década 1980, Década 1990, Organizações

Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista – CDPA (1)

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CDPA-Revolução Espanhola

O Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA) foi criado em 1984, quando os anarquistas que publicavam o jornal O Inimigo do Rei , saíram do espaço onde se reuniam nas proximidades do Relógio de São Pedro, em Salvador, para se deslocarem até a Praça da Sé, no Edifício Themis, onde continuariam se reunindo até começo dos anos 1990.

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18 de setembro de 2012 · 19:55

Campanha do Voto Nulo em 1988 (3)

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Comunistas de partidos como PCdoB ou PCB, e muita gente ortodoxa dentro do PT, sempre consideraram o anarquismo como uma espécie de Utopia, às vezes adjetivada de pequeno-burguesa, às vezes de contra-revolucionária. E, em geral, tacha-se anarquistas de pouco, ou nada, organizados.

Josef Stalin, apenas como exemplo, criticava (e chegou a assassinar) anarquistas porque eles teimavam em não entender que existem dois tipos de Ditadura. Lendo hoje um texto escrito por ele em 1907 não podemos deixar de achar uma situação tragicômica:

É claro que há duas espécies de ditadura. Há a ditadura da minoria, a ditadura de um pequeno grupo, a ditadura dos Trepov e Ignatiev, dirigida contra o povo. À frente de uma tal ditadura, figura ordinariamente uma camarilha, que adota decisões secretas e aperta a corda no pescoço da maioria do povo. E há a ditadura de outro gênero, a ditadura da maioria proletária, a ditadura da massa, dirigida contra a burguesia, contra a minoria. Aqui, à frente da ditadura se acha a massa, aqui não há lugar nem para uma camarilha, nem para as decisões secretas, aqui tudo se faz à luz do dia, na rua, nos comícios, e isso porque é a ditadura da rua, da massa, uma ditadura dirigida contra toda classe de opressores. (Anarquismo ou Socialismo?).

Pois bem.

A Campanha pelo Voto Nulo em 1988 talvez venha a ser um indício de que essa “falta de organização” é na verdade uma propaganda daqueles que detestam os anarquistas por outros motivos: Talvez seja porque os anarquistas adoram mostrar o “Lado B” das revoluções que eles defendem, ou porque os anarquistas têm uma visão mais irônica e sarcástica do mundo, ou simplesmente porque os anarquistas não têm qualquer simpatia pelo autoritarismo, lutando contra ele na família, na escola, na fábrica ou mesmo dentro de um ônibus, em uma cotidiana viagem de um bairro a outro.

Em 1988 os anarquistas de Salvador conseguiram até mesmo montar uma “coletiva” com a imprensa.

O encontro entre anarquistas do Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA) e do Núcleo Pró-COB de Salvador com jornalistas de A Tarde e Tribuna da Bahia ocorreu em um barzinho na Praça da Sé, pertinho de onde ficava a sede da organização acrata, no 5º Andar do Edifício Themis.

Seguem as digitalizações das matérias resultantes do encontro com os repórteres dos dois jornais.

No texto do repórter da Tribuna da Bahia não é difícil perceber uma certa antipatia com relação ao que pensam os anarquistas. O questionamento de que os anarquistas não estão preocupados “com o que vai acontecer no país se os seus cidadãos decidirem não mais escolher seus representantes no governo”, é, no mínimo, simplista e equivocado.

O texto do jornal A Tarde não tentou emitir qualquer juízo de valor sobre as ideias dos anarquistas entrevistados.

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Arquivado em Ações, Década 1980, Organizações

Campanha do Voto Nulo em 1988 (1)

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“Alguns indicadores da indiferença estão nas ruas. Em eleições passadas, é verdade, o voto branco e o voto nulo por erro do eleitor já tomavam proporções preocupantes. A despeito disso, o órgão superior da Justiça Eleitoral nunca somou os totais nacionais a ponto de permitir um estudo, por parte dos especialistas, do volume de votos nulos. O indicador novo é que o apelo ao voto nulo não parte hoje só de minorias anarquistas. Outros segmentos estao no mesmo caminho”.

Logo acima está trecho do Editorial do jornal A TARDE de 14 de Outubro de 1988, há poucas semanas da Eleição para a prefeitura de Salvador naquele ano.

Os principais candidatos naquela eleição foram: Fernando José (PMDB), Virgildásio de Senna (PSDB), Manoel Castro (PFL) e Zezéu Ribeiro (PT).

No editorial pode ser medida a preocupação dos órgãos de notícias que representavam as elites baianas com a possibilidade dos Votos Nulos alcançarem um grande percentual. E, até com um certo respeito, eles citam os anarquistas entre os grupos que, classicamente, defendem o Voto Nulo.

Os anarquistas, no ano de 1988, distribuídos entre grupos de trabalhadores (no núcleo Pró-COB), ou no Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista-CDPA, dentre outros, resolveram atacar de vez a Democracia Representativa lançando uma Campanha pelo Voto Nulo.

Por coincidência, alguns grupos de classe média também resolveram se mobilizar em defesa da anulação do voto.

Obviamente os dois grupos não tinham os mesmos objetivos gerais. Mas conseguiram, pelo menos uma vez, no intervalo entre Outubro e a data da eleição, unir forças numa Carreata.

Nas próximas postagens vou trazer mais material sobre essa Campanha.

Um abraço, e até a Terça-Feira que vem.

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