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Campanha do Voto Nulo em 1988 (3)

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Comunistas de partidos como PCdoB ou PCB, e muita gente ortodoxa dentro do PT, sempre consideraram o anarquismo como uma espécie de Utopia, às vezes adjetivada de pequeno-burguesa, às vezes de contra-revolucionária. E, em geral, tacha-se anarquistas de pouco, ou nada, organizados.

Josef Stalin, apenas como exemplo, criticava (e chegou a assassinar) anarquistas porque eles teimavam em não entender que existem dois tipos de Ditadura. Lendo hoje um texto escrito por ele em 1907 não podemos deixar de achar uma situação tragicômica:

É claro que há duas espécies de ditadura. Há a ditadura da minoria, a ditadura de um pequeno grupo, a ditadura dos Trepov e Ignatiev, dirigida contra o povo. À frente de uma tal ditadura, figura ordinariamente uma camarilha, que adota decisões secretas e aperta a corda no pescoço da maioria do povo. E há a ditadura de outro gênero, a ditadura da maioria proletária, a ditadura da massa, dirigida contra a burguesia, contra a minoria. Aqui, à frente da ditadura se acha a massa, aqui não há lugar nem para uma camarilha, nem para as decisões secretas, aqui tudo se faz à luz do dia, na rua, nos comícios, e isso porque é a ditadura da rua, da massa, uma ditadura dirigida contra toda classe de opressores. (Anarquismo ou Socialismo?).

Pois bem.

A Campanha pelo Voto Nulo em 1988 talvez venha a ser um indício de que essa “falta de organização” é na verdade uma propaganda daqueles que detestam os anarquistas por outros motivos: Talvez seja porque os anarquistas adoram mostrar o “Lado B” das revoluções que eles defendem, ou porque os anarquistas têm uma visão mais irônica e sarcástica do mundo, ou simplesmente porque os anarquistas não têm qualquer simpatia pelo autoritarismo, lutando contra ele na família, na escola, na fábrica ou mesmo dentro de um ônibus, em uma cotidiana viagem de um bairro a outro.

Em 1988 os anarquistas de Salvador conseguiram até mesmo montar uma “coletiva” com a imprensa.

O encontro entre anarquistas do Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA) e do Núcleo Pró-COB de Salvador com jornalistas de A Tarde e Tribuna da Bahia ocorreu em um barzinho na Praça da Sé, pertinho de onde ficava a sede da organização acrata, no 5º Andar do Edifício Themis.

Seguem as digitalizações das matérias resultantes do encontro com os repórteres dos dois jornais.

No texto do repórter da Tribuna da Bahia não é difícil perceber uma certa antipatia com relação ao que pensam os anarquistas. O questionamento de que os anarquistas não estão preocupados “com o que vai acontecer no país se os seus cidadãos decidirem não mais escolher seus representantes no governo”, é, no mínimo, simplista e equivocado.

O texto do jornal A Tarde não tentou emitir qualquer juízo de valor sobre as ideias dos anarquistas entrevistados.

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Arquivado em Ações, Década 1980, Organizações

Campanha do Voto Nulo em 1988 (1)

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“Alguns indicadores da indiferença estão nas ruas. Em eleições passadas, é verdade, o voto branco e o voto nulo por erro do eleitor já tomavam proporções preocupantes. A despeito disso, o órgão superior da Justiça Eleitoral nunca somou os totais nacionais a ponto de permitir um estudo, por parte dos especialistas, do volume de votos nulos. O indicador novo é que o apelo ao voto nulo não parte hoje só de minorias anarquistas. Outros segmentos estao no mesmo caminho”.

Logo acima está trecho do Editorial do jornal A TARDE de 14 de Outubro de 1988, há poucas semanas da Eleição para a prefeitura de Salvador naquele ano.

Os principais candidatos naquela eleição foram: Fernando José (PMDB), Virgildásio de Senna (PSDB), Manoel Castro (PFL) e Zezéu Ribeiro (PT).

No editorial pode ser medida a preocupação dos órgãos de notícias que representavam as elites baianas com a possibilidade dos Votos Nulos alcançarem um grande percentual. E, até com um certo respeito, eles citam os anarquistas entre os grupos que, classicamente, defendem o Voto Nulo.

Os anarquistas, no ano de 1988, distribuídos entre grupos de trabalhadores (no núcleo Pró-COB), ou no Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista-CDPA, dentre outros, resolveram atacar de vez a Democracia Representativa lançando uma Campanha pelo Voto Nulo.

Por coincidência, alguns grupos de classe média também resolveram se mobilizar em defesa da anulação do voto.

Obviamente os dois grupos não tinham os mesmos objetivos gerais. Mas conseguiram, pelo menos uma vez, no intervalo entre Outubro e a data da eleição, unir forças numa Carreata.

Nas próximas postagens vou trazer mais material sobre essa Campanha.

Um abraço, e até a Terça-Feira que vem.

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Arquivado em Ações, Década 1980

Germinal (3)

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Entre os dias 23 e 30 de Abril de 1920 acontece na Rua do Acre, 19, Rio de Janeiro, o 3º Congresso Operário Brasileiro.

Edgar Rodrigues, no livro Alvorada Operária, da Editora Mundo Livre, explica os objetivos daquele encontro:

O “3º Congresso Operário Brasileiro”, visava, principalmente, fortalecer e firmar uma orientação de princípios, ideias e doutrinas, capazes de conduzir o trabalhador em geral, pelo caminho justo e humano da reivindicação de melhorias sociais… Desejava também traçar uma diretriz doutrinária, ideológica, instrutiva, de cultura proletária, para que, consciente de seus direitos e deveres, a família assalariada soubesse exigir a sua real participação nos benefícios, nas benfeitorias… (Pag.161, Rio de Janeiro, 1979).

Nos registros de Edgar Rodrigues (no livro indicado) não é citada a participação de qualquer organização baiana no Congresso. Mas em documento de Santos Barboza é deixado claro a participação de baianos, inclusive com uma das 6 únicas Federações estaduais existentes.

Fiz essa introdução para trazer nesta postagem informações sobre a participação dos baianos Annibal Lopes Pinho e Gaudêncio José dos Santos.

No jornal Germinal, de 1º de Maio de 1920, seus editores falam das esperanças trazidas a partir desse encontro de trabalhadores brasileiros:

A hora em que estiver circulando esta folha, os proletários que partiram dos Estados para representar as suas coletividades no 3º Congresso Operaria Brasileiro, já estarão de retorno ao labor alguns dias abandonado para encaminhamento das reivindicações do trabalho em face do capitalismo espoliador. É a volta ao sofrimento, ao esbulho, a humilhação e não raro aos suplícios inquisitoriais que a burguesia capitalista aliançada à burguesia política vem infligindo a quantos se levantam para que seja restituído ao rebanho universal dos produtores aquilo que uma minoria velhaca extorquiu. Mas, na atmosfera viciada das fábricas, nos antros mascarados com os rótulos de oficinas no balouço pérfido dos andaimes, nos campos fecundados pelo suor dos escravos da lavoura, nas casas de máquinas dos navios, em toda a parte, enfim, onde, o operário trabalha e sofre, um lampejo de esperança iluminará a alma proletária do Brasil, ao recordar os planos de ação traçados no Congresso hoje encerrado.

Este Congresso ainda pode ser considerado de hegemonia anarco-sindicalista. Mesmo ocorrendo após muita gente do movimento operário ter ficado seduzida com a Revolução Russa. Por isso a escolha dessa matéria para a postagem.

Mas não é demais lembrar que já neste Congresso surgiam questões que iam de encontro às ideias acratas. É o caso de uma das Questões elaboradas em Ordem do Dia, transcrito por Edgar Rodrigues, no mesmo livro já informado acima, dentro do sub-tema “Orientação e Finalidade”:

22º – Haverá conveniência da criação, pelas organizações operárias, de um partido sindicalista do Brasil ? (Pag.163).

Terça-Feira que vem trago mais uma postagem sobre Germinal. Dessa vez um artigo “radical” falando da necessidade da aprendizagem, pelos trabalhadores,  sobre Sabotagem.

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