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Germinal (4)

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Quem já assistiu ao filme mais novo de Sherlock Holmes deve se lembrar de como aparecem os anarquistas de finais do Sec. XIX. Manipulados pelo inimigo do detetive inglês, os anarquistas lançam bombas tresloucadamente em toda Londres.

Obviamente aquela situação não surgiu no filme sem que houvesse alguma relação com a realidade. Entre o final do século 19 e começo do 20 muitos anarquistas deixaram de lado as letras, os jornais e as palavras, para agir de forma direta contra seus inimigos, no que se convencionou chamar de Propaganda pelas Ação.

Não nos esqueçamos do mais novo revoltado/famoso: Guy Fawkes. A máscara mais famosa nas manifestações anti-capitalistas através do mundo. O sujeito desejava destruir o Parlamento Britânico na base da bomba. Allan Moore e David Lloyd trouxeram a lenda de volta, com personagem sob a carapaça anarquista.

No livro, A Anarquia Perante os Tribunais (Centelha, 1984, Pag. 18) que aborda a defesa elaborada por Pietro Gori no processo-crime do Estado Italiano contra os Anarquistas de Gênova escreve-se o seguinte sobre aquele período:

É de acreditar que muito se receasse pelo desfecho do julgamento, pelas sucessivas vagas de histeria que as autoridades deixavam abater sobre os anarquistas, em consequência da onda de atentados, da autoria de anarquistas individualistas, que assombravam os governos.

A série já era longa, antes de junho de 1894, e já depois de 11 de julho de 1892, data da execução de Ravachol: em 23 de julho de 1892, Alexandre Berkman dispara e fere o magnata do aço Henry Clay Frick; em maio de 1893, Paolo Sehicchi lança uma bomba sobre o consulado espanhol de Gênova; em 9 de dezembro do mesmo ano, Auguste Vaillant atenta, também com dinamite, contra a Câmara dos Deputados francesa; em 12 de fevereiro de 1894 – o processo dos “Anarquistas de Gênova” aguardava o julgamento -, Émile Henry lança o pânico (ainda à bomba) no café de Saint-Lazare (e depois do julgamento, no dia 24 do mesmo mês, Sante Caserio apunhala Sadi-Carnot).

Espero não estar forçando a barra quando quero misturar o texto que segue, encontrado no jornal Germinal (01 de Maio de 1920, Num.03, Pág.07), com a conjuntura acima.

O autor do artigo escreve “especialmente” para o jornal. E escreve sobre um assunto que considero tabu (ainda mais hoje, em tempos de socialdemocracia e pós-modernismo). Texto parecido (com tamanha radicalidade) li apenas em documentos do início dos anos 1990, do Direct Action Movement (DAM), grupo anarquista inglês.

Hoje uma simples greve com ocupação do local de trabalho já é visto por muitos sindicalistas como uma coisa do diabo. (desculpem a brincadeira com o dito cujo, mas não achei analogia melhor).

Espero que gostem do texto (transcrito parcialmente), e até Sábado que vem, onde pularei algumas dezenas de anos para falar da propaganda sobre Voto Nulo ocorrida no final dos anos 80 aqui em Salvador.


O Valor e o Alcance da Sabotagem

(ESPECIALMENTE PARA ‘GERMINAL’)

A observação superficial dos resultados das inumeráveis greves que irrompem por todos os centros de atividade proletária deixa-nos a impressão penosa de uma série de derrotas cuja explicação não satisfaz a ninguém.

A causa das derrotas grevistas ou dos medíocres e insignificantes resultados dessas manifestações reivindicadoras reside unicamente no abandono da verdadeira tática a empregar nesses combates parciais que os nossos trabalhadores travam contra seus seculares e implacáveis inimigos do capital e do estado.

Em noventa e nove casos sobre cem as greves são perdidas, e se uma ou outra pode conseguir resultados apreciáveis, o fato reside na aplicação eficaz e oportuna da sabotagem ou, pelo menos, na ameaça de sabotagem da parte dos grevistas.

Como se compreende que um grupo numeroso de operários abandone uma oficina sem que a sua passagem por ela deixe os vestígios materiais  do seu protesto, de sua energia? Dar-se-á o caso das cegueiras coletivas que impedem a visão imediata das coisas para acender claridades longínquas e perfeitamente ilusórias?

É o que parece. O proletariado não sentiu ainda que o seu inimigo é o trabalho e que a arma assassina é o maquinismo ou a ferramenta com que ele executa a sua tarefa dolorosa.

E assim, por um velho respeito fanático pelo bem alheio, o grevista desvia a questão da greve para o lado de uma justiça que não existe e concentra as suas reivindicações no ponto negro do salário, sem se lembrar de que as armas, as verdadeiras armas que vencem a greve, ficam nas mãos do inimigo, respeitadas, intactas e formidáveis.

Em sabotagem, sem dano, sem destruição tão extensa quanto possível da ferramenta, da máquina, dos utensílios ou dos produtos de qualquer oficina ou fábrica, o resultado da greve é insignificante ou nulo. É isso pela razão claríssima e simplíssima de que o patrão continua dispondo dos mesmíssimos elementos com que explora e irá explorando as vítimas da sua ganância e da sua insaciabilidade.

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