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A Voz do Trabalhador (3)

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Não poderemos negar. Em comparação com Germinal o jornal A Voz do Trabalhador tem uma ligação muito mais direta com o anarquismo. Os temas que permeiam o pensamento dos anarquistas está frequentemente nas páginas daquele jornal. Muitas vezes na Primeira Página, o que nos faz imaginar uma certa hegemonia de anarquistas (ou anarquista) dentro da sua direção.

Veremos abaixo mais um desses exemplos. Na edição do jornal A Voz do Trabalhador de 12 de Fevereiro de 1921 poderemos encontrar várias ideias chaves ligadas ao dicionário acrata: Anti-Patriotismo, Anti-Militarismo, Anti-Estatismo, Anti-Capitalismo, Apoio Mútuo…

Não consegui compreender uma das palavras usadas pelo autor no 4º parágrafo. Se alguém de arvorar a decifrar, os arcanjos e anjos anarquistas estarão felizes no céu (ou no inferno).

Leiam e também aproveitem para comentar. Estarei de volta no sábado que vem.

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As Grandes Causas Sempre Fizeram Vítimas

Estão enganados, pois, todos os homens e governos que julguem-nos assassinos, maus, perversos, perturbadores, etc. O sangue jamais foi apanágio de quem alberga um ideal tão sublime como nosso ideal.

A história da humanidade ai está latente, abride-a, lede-a. Os lamentos, os queixumes e as cenas trágicas, dantescas e divinas que se manifestam em toda revolução de caráter social, não dimanam das essências líricas de nossas altruístas concepções anárquicas. Absolutamente não ! Não dependem elas da propaganda por nós realizada no sentido de transformação radical da sociedade por nós almejada. Os atentados que a imprensa burguesa chama anarquistas não são resultado de uma análise prévia dos efeitos por eles produzidos. São isso sim – a repercussão lógica do sistema atual político fundamentado na violência, afirmado na exploração do homem pelo homem e inspirado pelo militarismo, o qual nas fachadas de seus edifícios ostenta esta inscrição incitante ao crime: Si vis pacem para belum !

Eis ai a causa dos atos violentos que tanto dão que falar aos jornalistas fariseus e judas. Eles jamais serão evitados com o insulto soez e covarde aos próprios executores.

Não existe pois razão alguma para ___________ aos indivíduos ou coletividades que tais atos praticam, pois que só o meio ambiente é o responsável direto, tendo no Estado seu pedestal infame, sempre atuando no sentido da conservação de um regime social antagônico às funções biológicas da espécie.

Mais ainda: Em períodos de convulsões anormais da sociedade, não é possível exigir ou deter o desencadeamento imbele de atos cujos efeitos sejam contraproducentes a determinada classe social.

Não é essa classe dominante a autora consciente de todos os ódios humanos? Não militariza aos homens para o crime; não assassinou na última guerra europeia 25 milhões de operários? Não semeia a morte e a desolação, a orfandade por todos os recantos da terra, inoculando às crianças desde a mais tenra infância, o espírito da guerra, da conquista, do comércio, da pátria, da religião, etc.

Afirmamos, pois, que a violência não é nem mais nem menos do que um efeito da organização política e econômica do estado-autoritário e capitalista.

Só ele pode e deve ser responsabilizado de tudo o que acontece e venha a acontecer. Exigimos uma sociedade livre, humana, baseada no apoio mútuo – condição sine qua non da felicidade social. Para isto é tão necessária e fatal a violência como o são também as catástrofes geológicas e as revoluções cosmológicas. É a vida em seus delírios de grandeza.

Fernandes Varella

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Arquivado em Década 1920, Jornalismo