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A Voz do Trabalhador (4)

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Sem organização livre ou imposta, não pode haver sociedade; sem organização consciente ou voluntária não pode haver nem liberdade, nem garantia de que sejam respeitados os interesses dos que vivem em sociedade.

E quem não se organiza, quem não procura a cooperação dos outros e não oferece a sua em condições de reciprocidade e de solidariedade, coloca-se necessariamente em condição inferior, e é como a roda inconsciente no mecanismo social que os outros movem-no sem vantagem própria. Os trabalhadores são explorados e oprimidos porque, estando desorganizados para tudo quanto respeita a proteção dos seus interesses são coagidos pela fome e pela violência brutal a fazer como querem os dominadores, em cujo proveito é organizada a presente sociedade, e fornecem eles próprios, a força, soldados e capital que serve para os manter sujeitos.

Nem poderão emancipar-se enquanto não achem na união a força econômica e a força física de que necessitam para vencer a força organizada dos opressores.

Errico Malatesta

Todos os trabalhadores devem ler e esposar estas verdades escritas pelo grande Malatesta, elas são o fruto de cinquenta anos de lutas a frente do proletariado italiano.

Protsky

Dá prá imaginar um trabalhador baiano, no ano de 1921, lendo um texto desses, do anarquista italiano Malatesta ?

E quem estaria publicando esses textos que ou falava sobre anarquismo, ou com textos de anarquistas conhecidos ?

Talvez essas questões só possam vir a ser respondidas com nossas próprias imaginações.

Não é difícil imaginar que eram poucas aquelas pessoas que tinham a capacidade de leitura, dentro das classes operárias, em Salvador, na Bahia. Um dos personagens conhecidos dessa história, Agripino Nazareth, era um homem letrado, provavelmente formado em direito. Outros personagens naquele momento escrevem sob pseudônimos, arte conhecida dos jornalistas da atualidade, em tempos de ditadura. Provavelmente, poucos eram os que desenvolviam batalhas contra o capitalismo e o autoritarismo. Ontem nas letras impressas nas folhas de papel dos jornais, hoje nos caracteres construídos de bites e bytes.

Espero que aqueles que leem este blog se sintam estimulados para construir outras histórias dos anarquistas baianos dos anos 1920, a partir dos materiais guardados em hemerotecas por todo o país, ou já disponíveis em meios digitalizados, como é o caso dos jornais Germinal e A Voz do Trabalhador que usei aqui nestas postagens.

Continuarei por aqui. Histórias mais novas. Terça-Feira retorno.

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Arquivado em Década 1920, Jornalismo

Germinal (4)

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Quem já assistiu ao filme mais novo de Sherlock Holmes deve se lembrar de como aparecem os anarquistas de finais do Sec. XIX. Manipulados pelo inimigo do detetive inglês, os anarquistas lançam bombas tresloucadamente em toda Londres.

Obviamente aquela situação não surgiu no filme sem que houvesse alguma relação com a realidade. Entre o final do século 19 e começo do 20 muitos anarquistas deixaram de lado as letras, os jornais e as palavras, para agir de forma direta contra seus inimigos, no que se convencionou chamar de Propaganda pelas Ação.

Não nos esqueçamos do mais novo revoltado/famoso: Guy Fawkes. A máscara mais famosa nas manifestações anti-capitalistas através do mundo. O sujeito desejava destruir o Parlamento Britânico na base da bomba. Allan Moore e David Lloyd trouxeram a lenda de volta, com personagem sob a carapaça anarquista.

No livro, A Anarquia Perante os Tribunais (Centelha, 1984, Pag. 18) que aborda a defesa elaborada por Pietro Gori no processo-crime do Estado Italiano contra os Anarquistas de Gênova escreve-se o seguinte sobre aquele período:

É de acreditar que muito se receasse pelo desfecho do julgamento, pelas sucessivas vagas de histeria que as autoridades deixavam abater sobre os anarquistas, em consequência da onda de atentados, da autoria de anarquistas individualistas, que assombravam os governos.

A série já era longa, antes de junho de 1894, e já depois de 11 de julho de 1892, data da execução de Ravachol: em 23 de julho de 1892, Alexandre Berkman dispara e fere o magnata do aço Henry Clay Frick; em maio de 1893, Paolo Sehicchi lança uma bomba sobre o consulado espanhol de Gênova; em 9 de dezembro do mesmo ano, Auguste Vaillant atenta, também com dinamite, contra a Câmara dos Deputados francesa; em 12 de fevereiro de 1894 – o processo dos “Anarquistas de Gênova” aguardava o julgamento -, Émile Henry lança o pânico (ainda à bomba) no café de Saint-Lazare (e depois do julgamento, no dia 24 do mesmo mês, Sante Caserio apunhala Sadi-Carnot).

Espero não estar forçando a barra quando quero misturar o texto que segue, encontrado no jornal Germinal (01 de Maio de 1920, Num.03, Pág.07), com a conjuntura acima.

O autor do artigo escreve “especialmente” para o jornal. E escreve sobre um assunto que considero tabu (ainda mais hoje, em tempos de socialdemocracia e pós-modernismo). Texto parecido (com tamanha radicalidade) li apenas em documentos do início dos anos 1990, do Direct Action Movement (DAM), grupo anarquista inglês.

Hoje uma simples greve com ocupação do local de trabalho já é visto por muitos sindicalistas como uma coisa do diabo. (desculpem a brincadeira com o dito cujo, mas não achei analogia melhor).

Espero que gostem do texto (transcrito parcialmente), e até Sábado que vem, onde pularei algumas dezenas de anos para falar da propaganda sobre Voto Nulo ocorrida no final dos anos 80 aqui em Salvador.


O Valor e o Alcance da Sabotagem

(ESPECIALMENTE PARA ‘GERMINAL’)

A observação superficial dos resultados das inumeráveis greves que irrompem por todos os centros de atividade proletária deixa-nos a impressão penosa de uma série de derrotas cuja explicação não satisfaz a ninguém.

A causa das derrotas grevistas ou dos medíocres e insignificantes resultados dessas manifestações reivindicadoras reside unicamente no abandono da verdadeira tática a empregar nesses combates parciais que os nossos trabalhadores travam contra seus seculares e implacáveis inimigos do capital e do estado.

Em noventa e nove casos sobre cem as greves são perdidas, e se uma ou outra pode conseguir resultados apreciáveis, o fato reside na aplicação eficaz e oportuna da sabotagem ou, pelo menos, na ameaça de sabotagem da parte dos grevistas.

Como se compreende que um grupo numeroso de operários abandone uma oficina sem que a sua passagem por ela deixe os vestígios materiais  do seu protesto, de sua energia? Dar-se-á o caso das cegueiras coletivas que impedem a visão imediata das coisas para acender claridades longínquas e perfeitamente ilusórias?

É o que parece. O proletariado não sentiu ainda que o seu inimigo é o trabalho e que a arma assassina é o maquinismo ou a ferramenta com que ele executa a sua tarefa dolorosa.

E assim, por um velho respeito fanático pelo bem alheio, o grevista desvia a questão da greve para o lado de uma justiça que não existe e concentra as suas reivindicações no ponto negro do salário, sem se lembrar de que as armas, as verdadeiras armas que vencem a greve, ficam nas mãos do inimigo, respeitadas, intactas e formidáveis.

Em sabotagem, sem dano, sem destruição tão extensa quanto possível da ferramenta, da máquina, dos utensílios ou dos produtos de qualquer oficina ou fábrica, o resultado da greve é insignificante ou nulo. É isso pela razão claríssima e simplíssima de que o patrão continua dispondo dos mesmíssimos elementos com que explora e irá explorando as vítimas da sua ganância e da sua insaciabilidade.

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Arquivado em Década 1920, Jornalismo

Germinal (3)

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Entre os dias 23 e 30 de Abril de 1920 acontece na Rua do Acre, 19, Rio de Janeiro, o 3º Congresso Operário Brasileiro.

Edgar Rodrigues, no livro Alvorada Operária, da Editora Mundo Livre, explica os objetivos daquele encontro:

O “3º Congresso Operário Brasileiro”, visava, principalmente, fortalecer e firmar uma orientação de princípios, ideias e doutrinas, capazes de conduzir o trabalhador em geral, pelo caminho justo e humano da reivindicação de melhorias sociais… Desejava também traçar uma diretriz doutrinária, ideológica, instrutiva, de cultura proletária, para que, consciente de seus direitos e deveres, a família assalariada soubesse exigir a sua real participação nos benefícios, nas benfeitorias… (Pag.161, Rio de Janeiro, 1979).

Nos registros de Edgar Rodrigues (no livro indicado) não é citada a participação de qualquer organização baiana no Congresso. Mas em documento de Santos Barboza é deixado claro a participação de baianos, inclusive com uma das 6 únicas Federações estaduais existentes.

Fiz essa introdução para trazer nesta postagem informações sobre a participação dos baianos Annibal Lopes Pinho e Gaudêncio José dos Santos.

No jornal Germinal, de 1º de Maio de 1920, seus editores falam das esperanças trazidas a partir desse encontro de trabalhadores brasileiros:

A hora em que estiver circulando esta folha, os proletários que partiram dos Estados para representar as suas coletividades no 3º Congresso Operaria Brasileiro, já estarão de retorno ao labor alguns dias abandonado para encaminhamento das reivindicações do trabalho em face do capitalismo espoliador. É a volta ao sofrimento, ao esbulho, a humilhação e não raro aos suplícios inquisitoriais que a burguesia capitalista aliançada à burguesia política vem infligindo a quantos se levantam para que seja restituído ao rebanho universal dos produtores aquilo que uma minoria velhaca extorquiu. Mas, na atmosfera viciada das fábricas, nos antros mascarados com os rótulos de oficinas no balouço pérfido dos andaimes, nos campos fecundados pelo suor dos escravos da lavoura, nas casas de máquinas dos navios, em toda a parte, enfim, onde, o operário trabalha e sofre, um lampejo de esperança iluminará a alma proletária do Brasil, ao recordar os planos de ação traçados no Congresso hoje encerrado.

Este Congresso ainda pode ser considerado de hegemonia anarco-sindicalista. Mesmo ocorrendo após muita gente do movimento operário ter ficado seduzida com a Revolução Russa. Por isso a escolha dessa matéria para a postagem.

Mas não é demais lembrar que já neste Congresso surgiam questões que iam de encontro às ideias acratas. É o caso de uma das Questões elaboradas em Ordem do Dia, transcrito por Edgar Rodrigues, no mesmo livro já informado acima, dentro do sub-tema “Orientação e Finalidade”:

22º – Haverá conveniência da criação, pelas organizações operárias, de um partido sindicalista do Brasil ? (Pag.163).

Terça-Feira que vem trago mais uma postagem sobre Germinal. Dessa vez um artigo “radical” falando da necessidade da aprendizagem, pelos trabalhadores,  sobre Sabotagem.

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Arquivado em Década 1920, Organizações

Germinal (2)

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Em uma leitura não muito aprofundada sobre Germinal dá para perceber que não é comum se utilizar o termo anarquista dentro do jornal.

A não ser numa breve citação do Diretor do jornal, Agripino Nazareth, em editorial da primeira edição da publicação:

Podeis, pois, honrados burgueses da “minha” terra, exteriorizar nos vossos trejeitos burlescos, todo o desespero que vos conturba as alminhas pelo primeiro ensaio de imprensa socialista na Bahia. Reuni, se quiserdes, o vosso grêmio, conclamando-o, a bimbalhos do sino com que o barão de Rodolpho Martins chama a postos industriais e comerciantes politicastros, eleiçoreiros e subvencionadores e subvencionadores de revoluções a distância, para uma ação em regra contra este atrevimento em letra de forma, do “anarchista”, como me definissem que eu o seja nem me incomode em ser tido como tal“.

Até mesmo as referências a indivíduos e órgãos de imprensa nitidamente anarquistas são revertidas de anarquistas para socialistas. Mas, de uma forma ou de outra, o jornal não deixa de publicar material de conteúdo anarquista. Seja em artigo de Everardo Dias, mostrado na postagem anterior, ou em ensaio de Leon Tolstoi (também publicado na primeira edição). Ou mesmo através das ideias implícitas nas notícias e reportagens, como a questão da solidariedade operária, federalismo, e até mesmo um certo pé atrás com partidos.

Hoje transcrevo da primeira edição do Germinal um texto onde podem ser identificados vários dos pontos expostos acima.

Espero que lhes interesse. Volto no Sábado.

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OS ACONTECIMENTOS NO RIO

Como repercutiram eles na Bahia

O Brasil inteiro, notadamente o Brasil proletário, acompanhou com o mais vivo interesse o desdobrar dos acontecimentos que a “greve” do pessoal da Leopoldina provocou.

Sofredores como os seus irmãos da “Great Western” e da “Chemias”, os ferroviários da Leopoldina, após algumas décadas de submissão aviltadora, fizeram um apelo aos resquícios de altivez ainda latentes em suas consciências, fundaram grêmios de resistência e vieram a campo gladiando pelos interesses e direitos postergados.

O governo federal, cujo espirito reacionário vem insolitamente afirmando contra o operariado, num momento em que os dirigentes das nações todas do Velho Mundo se extremam em atender e até mesmo acoroçoar as reivindicações trabalhistas, bateu o pé irado, e entrou a prender grevistas, a fechar associações obreiras, prender jornalistas da vanguarda socialista. A “Voz do Povo”, o grande matutino operário e socialista do Rio, teve presos o seu diretor Affonso Schmidt e seus redatores Alvaro Palmeira, José Oiticica, Fabio Luz e Astrojildo Pereira. Qualquer jornalista que pretendesse galgar as escadas da redação do valoroso órgão era logo preso, afim de que não houvesse quem o redigisse.

Nada mais, nada menos, que o garroteamento da liberdade de imprensa, por sinal que em plena Rua da Constituição, na Capital da República, e por ordem do presidente da dita, o mesmo homem que, se não nos enganamos, em 1893, da tribuna da Câmara dos Deputados, gritava umas objurgatórias bem duras a Floriano, por amor a mesmíssima Constituição que S. Ex. agora reduz a frangalhos. E, não fora o gesto de Mauricio de Lacerda, assumindo a direção da “Voz do Povo”, o operariado em “greve” não teria todos os dias a palavra de ordem emanada de seu legitimo órgão, para prosseguir, como prosseguiu na luta.

Evidentemente, em face desses acontecimentos, o proletariado baiano de maneira alguma poderia permanecer inativo. A sua solidariedade moral para com os irmãos do sol já havia sido eloquentemente expressa nas moções votadas pela Federação, pondo-se a margem a solidariedade prática, pela “greve”, em virtude do momento delicado que atravessava a Bahia, e para evitar explorações partidárias em torno do movimento que se viesse a fazer.

Os últimos atos do governo federal arrastaram, porém, os trabalhadores da Bahia, a uma atitude mais desassombrada, de onde, no dia 29 de Março, amanhecer esta capital com serviço de viação paralisado e suspensos também, ou em iminência de suspensão, o labor nas fábricas, oficinas e construções.

A esse tempo a Federação dos Trabalhadores Bahianos, que havia decretado a paralisação na capital em algumas cidades do interior, recebia do Rio, comunicações de que o governo procurava corrigir os excessos anteriores, promovendo a solução definitiva do caso da Leopoldina, reabrindo as associações obreiras e pondo em liberdade os operários abusivamente arremessados às prisões.

Restava, pois, à Federação, revogar o decreto de paralisação, o que foi feito, voltando dentro de poucas horas, às suas ocupações habituais, o operariado em parede, e ficando adiadas para oportunidade melhor as reivindicações que naturalmente seriam positivadas, caso o motivo principal do movimento inicial não houvesse desaparecido com a vitória dos companheiros do Rio.

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Arquivado em Década 1920, Jornalismo

Germinal (1)

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O jornal que identifiquei como o primeiro a lançar ideias de anarquistas na Bahia foi GERMINAL. No texto transcrito abaixo, publicado na edição do jornal de 1º de Maio de 1920, Everardo Dias, um anarquista com todos os paradoxos possíveis, como no caso da sua participação no PRP (Partido Republicano Paulista), escreve acerca da Liberdade e da capacidade dos políticos em geral de enganarem o Povo. Germinal publicava matérias de gente que se definia como Socialista. Muitos deles, defensores da Revolução Russa, ainda com três anos de idade, eram encontrados em suas páginas, abordando assuntos como “bolchevismo” e “syndicalismo”.
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Germinal nasce como umas das consequências da Greve Geral de Junho 1919, em Salvador. O jornal era dirigido por Agripino Nazareth, uma das lideranças daquela greve. Nas próximas postagens trarei mais alguns textos com conteúdo anarquista.
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Boa leitura. E até Terça-Feira, quando volto a postar.
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Por Everardo Dias (1883-1966)
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Se os nomes se gastassem com o uso, de há muito que o povo não mais possuiria o seu.
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Não há político sem mérito que não abuse dele; não há jornalista burguês que não o traga e não o leve, aproveitando-o para os mais opostos fins; não há clube secreto, nem assembleia pública, nem púlpito de igreja onde não se fale do povo, onde não se alardeie que se trabalha pelo seu melhoramento e pela sua emancipação. O que eles nunca dizem é que o povo é um conjunto de degraus para a consecução das suas secretas ambições, que é a escada pela qual se trepa ao poder, que é a máscara com que se ocultam as traições, que é o editor responsável de tudo quanto é ruim e detestável…
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Disse Guerra Junqueiro:
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“O povo é rei. É rei como Jesus, Para beber o fel, para morrer na Cruz!”
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Uns o amordaçam, outros o enganam; todos o exploram.
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À sua sombra canta-se a lealdade e medita-se na traição… Com seu involuntário concurso executam-se as maiores indignidades. Dentre a sua compacta massa saem, periodicamente, um guerreiro, um poeta, um orador, um político. Mas o guerreiro o espaldeira, o legislador o escraviza, o poeta o abandona para arrastar o seu gênio perante o poder, o orador o acusa, o político o vende.
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Eterna vítima de uns e outros, espera há tempos, tanto destes como daqueles, o cumprimento das suas falazes promessas.
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Se a civilização não tivesse despedaçado os grilhões da escravidão, ainda permaneceria escravo.
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Os seus salvadores, os seus apologistas, os seus defensores o empregaram como instrumento necessário de ódio e depois o abandonaram. É que o povo permaneceu ainda na sua infância com todo o entusiasmo e com toda a inexperiência, próprias da primeira idade.
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À força de ser crédulo, é idólatra e constantemente o vemos prostrar-se perante o senhor, tremer perante o monarca, julgando-o uma entidade sobre-humana e adorar mais tarde aquele que lhe trouxe a morte sob as dobras da bandeira augusta da Liberdade…
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Mas, como a idolatria é cega durante certo tempo somente, o povo começa a abrir os olhos e contempla a etrusca feiura dos seus ídolos de hoje e prepara-se para os derribar do pedestal onde noutros tempos contritamente os colocara.
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Já começa a conhecer os seus verdadeiros interesses, a distinguir os que realmente são seus amigos, e benfeitores e a apreciar com justiça o valor que têm os seus falsos apóstolos; e assim que a idolatria seja sobrepujada pelo desprezo, o povo terá vida e representação próprias e não será instrumento de bastardas ambições, nem pedestal para onde trepem os farsolas que querem aparecer mais altos do que realmente são.
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Texto transcrito do Jornal Germinal, Bahia, 1º de Maio de 1920.

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