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Associação em Prol do Pensamento Libertário – APPL (3)

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Em 04 de Março de 1994 os anarquistas que constituíam a APPL começaram uma grande experiência em suas vidas.

Alugaram e ocuparam uma casa de três quartos em uma transversal da Rua Melo Moraes Filho, no bairro da Fazenda Grande do Retiro, para trabalhar com o que eles consideravam de grande importância naquele momento: A Inserção Social.

Um espaço autogestionário em um bairro de periferia teria o objetivo de mostrar a massa da população como funcionava uma organização anarquista, além de servir de local de aprendizado do próprio viver anarquista, com as facilidades e dificuldades que pensadores libertários sempre discutiram, e muita gente já havia vivido em várias histórias da humanidade, seja na Espanha de 1936, seja na Colônia Cecília, na década de 90 do Século XIX, no Estado do Paraná.

Montaram-se Bancas, que funcionaram timidamente. Criaram-se oficinas de serigrafia, teatro, costura. E abriu-se a Biblioteca Emma Goldman, com aproximadamente 1000 volumes. Assuntos diversificados: Política, Sociologia, História, Sociologia, Ficção Científica, e até Anarquismo, representado por uma faixa de 200 livros (em português, espanhol, francês e inglês). Mostras de filmes com debates, etc.

Para servir como caminho a ser seguido no desenvolvimento do espaço da Fazenda Grande, os membros da APPL construíram o seu ABC (Acordos Básicos Comuns). No ABC constavam como seriam as Reuniões, como se dariam os trabalhos internos, de limpeza, de manutenção, etc.  Como se dariam a entrada de novos membros. Ou como seria o comportamento dos membros enquanto estivessem na casa. E esse último tópico deu o que falar.

O entendimento inicial de que a tal inserção dentro do bairro teria de contemplar alguns limites na vivência dentro da casa começou a se esfacelar quando algumas regras foram sendo discutidas na construção do ABC….

Alguns dos limites que se desejava dar dentro do espaço eram consequência de outras experiências como a da Mata Escura, formada por um grupo de punks anos antes, além da própria história de alguns dos participantes que atuavam coletivamente em sindicatos ou outras associações.

Proibição de bebidas dentro da casa, incluindo os dias de Reuniões; Proibição de hospedagem de anarquistas de outras localidades que estivessem passando por Salvador; Proibição de festas não deliberadas por Assembleias. Estas foram algumas das decisões que tiveram maior repercussão negativa quanto a união do grupo. Enquanto um grupo majoritário queria esses limites como meio de evitar que a própria comunidade em redor da casa começasse a ver o espaço com “maus olhos”, outra parte dos membros considerava as proibições como descaracterização do anarquismo, gerando um paradoxo na base da sua existência.

As discussões, as vezes violentas, demoraram meses. E prejudicaram o andamento das ações que se queriam tomar. Após alguns meses as bancas de reforço escolar se extinguiram, as oficinas minguaram. Os participantes foram se afastando. Dos 11 “fundadores”, sobraram, no mês de Março de 1995, apenas 3 esfarrapados e cansados militantes.

Nos últimos meses poucas ações sobraram aos poucos militantes restantes. Uma ou outra palestra em Escolas vizinhas. Mostra de filmes (numa grande TV de 29″). A própria Biblioteca se encontrava às moscas, pois, em depoimento de uma das moradoras que frequentava o espaço, verifica-se que os vizinhos não se identificavam com o visual de anarquistas que também visitavam o local. Essa era apenas uma das complexas dificuldades para por em prática a tal Inserção Social do Anarquismo.

A experiência na Fazenda Grande do Retiro terminava, mas a APPL teimou em continuar existindo. Aos poucos, novos membros foram aparecendo. As reuniões aos Domingos foram transferidas para as casas dos membros do grupo (em alguns domingos quase o mesmo quantitativo anterior). A nova formação gerou um boletim: O Libertário. Falaremos deste boletim nas próximas postagens.

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