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Germinal (2)

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Em uma leitura não muito aprofundada sobre Germinal dá para perceber que não é comum se utilizar o termo anarquista dentro do jornal.

A não ser numa breve citação do Diretor do jornal, Agripino Nazareth, em editorial da primeira edição da publicação:

Podeis, pois, honrados burgueses da “minha” terra, exteriorizar nos vossos trejeitos burlescos, todo o desespero que vos conturba as alminhas pelo primeiro ensaio de imprensa socialista na Bahia. Reuni, se quiserdes, o vosso grêmio, conclamando-o, a bimbalhos do sino com que o barão de Rodolpho Martins chama a postos industriais e comerciantes politicastros, eleiçoreiros e subvencionadores e subvencionadores de revoluções a distância, para uma ação em regra contra este atrevimento em letra de forma, do “anarchista”, como me definissem que eu o seja nem me incomode em ser tido como tal“.

Até mesmo as referências a indivíduos e órgãos de imprensa nitidamente anarquistas são revertidas de anarquistas para socialistas. Mas, de uma forma ou de outra, o jornal não deixa de publicar material de conteúdo anarquista. Seja em artigo de Everardo Dias, mostrado na postagem anterior, ou em ensaio de Leon Tolstoi (também publicado na primeira edição). Ou mesmo através das ideias implícitas nas notícias e reportagens, como a questão da solidariedade operária, federalismo, e até mesmo um certo pé atrás com partidos.

Hoje transcrevo da primeira edição do Germinal um texto onde podem ser identificados vários dos pontos expostos acima.

Espero que lhes interesse. Volto no Sábado.

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OS ACONTECIMENTOS NO RIO

Como repercutiram eles na Bahia

O Brasil inteiro, notadamente o Brasil proletário, acompanhou com o mais vivo interesse o desdobrar dos acontecimentos que a “greve” do pessoal da Leopoldina provocou.

Sofredores como os seus irmãos da “Great Western” e da “Chemias”, os ferroviários da Leopoldina, após algumas décadas de submissão aviltadora, fizeram um apelo aos resquícios de altivez ainda latentes em suas consciências, fundaram grêmios de resistência e vieram a campo gladiando pelos interesses e direitos postergados.

O governo federal, cujo espirito reacionário vem insolitamente afirmando contra o operariado, num momento em que os dirigentes das nações todas do Velho Mundo se extremam em atender e até mesmo acoroçoar as reivindicações trabalhistas, bateu o pé irado, e entrou a prender grevistas, a fechar associações obreiras, prender jornalistas da vanguarda socialista. A “Voz do Povo”, o grande matutino operário e socialista do Rio, teve presos o seu diretor Affonso Schmidt e seus redatores Alvaro Palmeira, José Oiticica, Fabio Luz e Astrojildo Pereira. Qualquer jornalista que pretendesse galgar as escadas da redação do valoroso órgão era logo preso, afim de que não houvesse quem o redigisse.

Nada mais, nada menos, que o garroteamento da liberdade de imprensa, por sinal que em plena Rua da Constituição, na Capital da República, e por ordem do presidente da dita, o mesmo homem que, se não nos enganamos, em 1893, da tribuna da Câmara dos Deputados, gritava umas objurgatórias bem duras a Floriano, por amor a mesmíssima Constituição que S. Ex. agora reduz a frangalhos. E, não fora o gesto de Mauricio de Lacerda, assumindo a direção da “Voz do Povo”, o operariado em “greve” não teria todos os dias a palavra de ordem emanada de seu legitimo órgão, para prosseguir, como prosseguiu na luta.

Evidentemente, em face desses acontecimentos, o proletariado baiano de maneira alguma poderia permanecer inativo. A sua solidariedade moral para com os irmãos do sol já havia sido eloquentemente expressa nas moções votadas pela Federação, pondo-se a margem a solidariedade prática, pela “greve”, em virtude do momento delicado que atravessava a Bahia, e para evitar explorações partidárias em torno do movimento que se viesse a fazer.

Os últimos atos do governo federal arrastaram, porém, os trabalhadores da Bahia, a uma atitude mais desassombrada, de onde, no dia 29 de Março, amanhecer esta capital com serviço de viação paralisado e suspensos também, ou em iminência de suspensão, o labor nas fábricas, oficinas e construções.

A esse tempo a Federação dos Trabalhadores Bahianos, que havia decretado a paralisação na capital em algumas cidades do interior, recebia do Rio, comunicações de que o governo procurava corrigir os excessos anteriores, promovendo a solução definitiva do caso da Leopoldina, reabrindo as associações obreiras e pondo em liberdade os operários abusivamente arremessados às prisões.

Restava, pois, à Federação, revogar o decreto de paralisação, o que foi feito, voltando dentro de poucas horas, às suas ocupações habituais, o operariado em parede, e ficando adiadas para oportunidade melhor as reivindicações que naturalmente seriam positivadas, caso o motivo principal do movimento inicial não houvesse desaparecido com a vitória dos companheiros do Rio.

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