Arquivo da tag: O Inimigo do Rei

Revista Barbárie (III)

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Segue hoje uma entrevista feita em 2007 com Hilda Maria Braga.

Hilda participou do início da construção do Jornal O Inimigo do Rei, em 1977, e também da Revista Barbárie, em 1979.

Assistam e comentem se possível.

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Arquivado em Década 1970, Década 1980, Entrevista, Organizações

Movimento Libertário de Pau da Lima (II)

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Mancha Negra_07_Nov.1996

O texto que segue é parte de um artigo maior que criei durante a graduação em jornalismo. No texto eu falava sobre o Jornal alternativo O Inimigo do Rei.

Mas as ideias postas ali servem também para boa parte da história da imprensa anarquista, incluindo a imprensa das organizações libertárias dos anos pós-ditadura, como, por exemplo, o Mancha Negra, digitalizado acima.

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Mas estamos hoje, a 30 anos de distância do início da publicação do jornal, e em um mundo complicado de se entender. E de sobreviver. A sociedade parece continuar a serviço de uma minoria, mas agora sem a necessidade de uma ditadura militar. E é esta minoria que detêm hoje a matéria-prima fundamental à existência dentro desta sociedade: a informação. Mesmo dentro da Internet, um campo ilusoriamente democrático, os grandes portais abocanham a maior parte da audiência, enquanto o status de pobreza destitui boa parte da população do seu uso.

Como aconteceu com a televisão, progressivamente, o capitalismo se encarrega de excluir ou marginalizar os espaços que contrariem as normas comerciais. Através de portais, banners, ou sistemas de busca que direcionam as preferências. Essa é uma previsão que não pode ser descartada… A existência de sociedades democráticas não estará assegurada a partir do nascimento de nenhum meio, mas sim com o surgimento de conquistas coletivas e na distribuição igualitária dos conteúdos informacionais.(1)

É pensando assim, e tentando retirar da minoria parte de seu poder, conseguido através da informação e do saber, que poderemos vislumbrar um mundo sem tantas diferenças econômicas.

Uma das possibilidades que temos para concretizar esta meta é através do reviver das histórias, normalmente esquecidas, de homens e mulheres que lutaram contra qualquer tipo de autoritarismo.

Daniel James revela sua preocupação em preservar esse tipo de memória social “dos oprimidos”. Até como forma de impedir uma perda coletiva de memória e tradição em uma conjuntura de reestruturação econômica e política tão perversa. E como referência a isto nos fala de um importante movimento de bases populares na Argentina, ocorrido em 1969:

… no ano passado na Argentina, um sindicalista disse-me que a maioria dos trabalhadores na sua empresa já não tinha a mais vaga idéia sobre o que o Cordobazo , tinha realmente sido. O Cordobazo havia se tornado um nome, uma forma vazia de conteúdo. A necessidade de fazer frente a essa sorte de amnésia parece evidente.(2)

Os autores de Os Baianos que Rugem, livro que aborda a vida de três outros nanicos existentes na Bahia na década de 70, confirmam essa visão, pois constataram “a profunda desinformação a respeito do fenômeno (imprensa alternativa) por parte das novas gerações”.(3)

Além do mais estamos vivendo hoje um tempo de certezas (quase) absolutas. Ou melhor, um tempo em que se aparentam mais certezas do que dúvidas. Onde, após o fim da União Soviética, até mesmo o fim da história já foi estabelecido, pelo filósofo americano Francis Fukuyama, ideólogo do neoliberalismo, para quem tínhamos chegado “ao ponto final da evolução ideológica e à universalização da democracia liberal ocidental como forma final de governo“. É o tempo de algo sombrio ao qual já se nomeou de Pensamento Único. O diretor do jornal Le Monde Diplomatic, Ignacio Ramonet, menos apocalíptico do que realista, aponta o que este tipo de situação traz consigo:

Nas democracias atuais, cada vez mais cidadãos livres sentem-se atolados, lambuzados por um tipo de doutrina viscosa que, imperceptivelmente, envolve todo raciocínio rebelde, inibi-o, desorganiza-o, paralisa-o e termina por asfixiá-lo. Essa doutrina constitui o “pensamento único”, única autorizada por um invisível e onipresente controle de opinião.(4)

Mostrando que uma visão crítica do mundo não serve de nada se nos leva a um beco sem saída, o próprio Ramonet participando do 5º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, em 2005, afirmou, em entrevista a João Alexandre Peschanski, que:

Tudo está indicando que outro tipo de comunicação é possível, que responda mais às necessidades da população do que aos interesses das grandes empresas. Neste caso, poderia pensar-se em um meio de coletar toda essa informação que é produzida e disseminá-la de modo mais efetivo. Quando cada um trabalha por si, somos muitos fracos, é preciso que todos trabalhemos em conjunto.(5)

Verificamos, assim, a importância de discutir sobre mídias de resistência numa perspectiva não só acadêmica do ponto de vista de sua história, mas também ao nível de uma práxis que deve permitir a aqueles que se embrenham na arte do jornalismo se colocarem do lado da população em nome da democracia, indo de encontro a qualquer ação que possa vir a reduzir as liberdades de viver e de se expressar.

Estudar e dar visibilidade a um dos jornais que se encontravam dentro desta perspectiva e definição de mídia alternativa, e de combate a atual situação do mundo, é fazer relembrar justamente a trajetória deste sentimento de resistência que se sobrepõe ao medo de lutar contra o autoritarismo e contra o conformismo.

Numa sociedade onde o poder continua nas mãos de poucos e que é usado para manipular a vida de todo um país, é imprescindível que haja uma ‘re’-ação a este monopólio de autoridade por meio da palavra escrita, da imprensa alternativa que defenda igualdade social, de forma a incentivar uma luta pelo direito de cada indivíduo fazer o que quiser, na hora que achar conveniente, apenas respeitando os seus limites e o direito que o outro também tem dentro daquele espaço que é comum a todos que ali convivem, o que efetivamente estará efetivando a autodisciplina e o respeito pelos seus semelhantes.

Portanto, num momento como esse, em que nós vivenciamos uma traumática derrocada das utopias, não há nada melhor do que rebuscar na História um pouco de antagonismo. E particularmente quando utilizamos alguma parte dela em que homens e mulheres se unem, para com uma pitada de humor, e outras de ironia e coragem, tentarem destronar o Rei.


(1) SANTOS, Patrícia Diniz. Mídia digital: dos princípios da liberdade à democracia ilusória. Disponível em http://www.uff.br/mestcii/diniz.htm, acessado em 15 de Abril de 2007.

(2) JAMES, Daniel. O que há de novo? O que há de velho? Os parâmetros emergentes da história do trabalho latino-americana. IN: ARAÚJO, Ângela M.C. Trabalho, Cultura e Cidadania. São Paulo: Scritta, 1997. Pag. 137.

(3) VILELA, G.; FALCÓN, G. Os Baianos que Rugem: A Imprensa Alternativa na Bahia. Salvador: Edufba, 1996. Pag.11.

(4) RAMONET, Ignácio. O Pensamento Único. In MALAGUTI, Manoel (Org.). A Quem Pertence o Amanhã: Ensaios sobre o Neoliberalismo. São Paulo: Edições Loyola, 1997. Pag.23.

(5) RAMONET, Ignácio. Entrevista a João Alexandre Peschanski. Disponível em http://www.piratininga.org.br/artigos/2005/61/ramonet-bdf.html, acessado em 12 de Abril de 2007.

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O Inimigo do Rei (4)

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Documentário produzido por Carlos Baqueiro e Eliene Nunes sobre o jornal O Inimigo do Rei. 22 minutos.

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O Inimigo do Rei (3)

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Na Contra-Capa do número 20 (Julho/Agosto de 1987) do jornal O Inimigo do Rei, seus colaboradores citam várias coisas com as quais eles concordam, tanto para lutar (Greve Expropriadora), quanto para se deliciar (Sorvete de Mangaba).

Segundo as más línguas, esta página foi idealizada numa manhã ensolarada de Domingo, em uma das acaloradas reuniões que o grupo da Bahia fazia semanalmente, antes da grata cerveja, tomada aos pés do Edifício Themis, na Praça da Sé, no centro de Salvador.

Na mesma edição há a preocupação, sempre encontrada nas outras edições, de informar o que é o jornal, como funciona, e o que há de diferente entre ele e outros jornais clássicos ou mesmo alternativos.

Ai vai o texto, na íntegra:

O Inimigo do Rei é uma publicação de caráter autogestionário. É uma experiência nova no Brasil, um jornal sem censura de nenhum tipo. É feito e administrado pelos coletivos pró-federação anarquista, sendo propriedade deles.

Numa época que toda a imprensa alternativa está em crise ou desapareceu, quando só existem jornais de dois partidos comunistas com pequena circulação popular, ficando cada vez mais como jornal de circulação interna desses partidos, editamos “O Inimigo do Rei”, que chega ao número 20.

A única coisa que permite a sua manutenção, exclusiva pela venda, é a autogestão, a solidariedade dos coletivos nas vendas e na sua distribuição, é o jornal ser de fato de todos aqueles que participam desses coletivos. Ele só é possível de ser editado por ser feito inteiramente de acordo com as propostas anarquistas. Se fôssemos um bando de intelectuais não sairíamos dos primeiros números como tantas publicações que conhecemos.

COMO É UM JORNAL FEITO NESSES MOLDES, SÓ ESCREVEM PARA ELE AQUELES QUE FAZEM PARTE DOS COLETIVOS ANARQUISTAS. PARA NÓS, É FUNDAMENTAL QUE O TRABALHO INTELECTUAL SEJA RESULTADO DO TRABALHO DA MILITÂNCIA DIÁRIA NAS REUNIÕES, PALESTRAS, ASSEMBLÉIAS E ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO ANARQUISTA HOJE NO BRASIL.

Intelectuais brasileiros, escritores de todos os tipos, hoje muito “anarquistas” para nosso gosto, por favor não nos mandem artigos porque a Bahia não tem autoridade para publicar nada. Um estudante secundarista que faça parte de um nosso coletivo, em qualquer cidade do Brasil, tem mais poder que nós para dizer o que vai sair se o seu coletivo possuí uma parte do espaço do jornal, naquele número. Não gastem o selo do correio. Não temos dinheiro para lhes devolver os originais. Não estamos interessados em “nível”. Achamos que isso é uma censura disfarçada e inventada pelos intelectuais burgueses para perseguirem-se uns aos outros. Nosso jornal reflete o pensamento do militante diário, daqueles que carrega panfletos nas sacolas.

Achamos que cada um pode refletir em palavras o que vive, com o quê se preocupa, muito mais do que gente que só quer “brilhar” e se auto-promover. Até agora, o “nível” tem sido mantido indiretamente. É a ironia da vida. Quem gosta de nivelar os outros fica sempre abaixo do nível. Nós não queremos nivelar. Queremos expressar. Mas expressar todos. Todos os que trabalham pelo movimento. Não aqueles que querem expressar suas individualidades burguesas para se sentir admirados em meios intelectuais.

Evidentemente, isso não nos interessa.

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O Inimigo do Rei (2)

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A imagem acima, retirada do Nº03 do jornal O Inimigo do Rei, de outubro de 1978, lembrava os 10 anos da Primavera de Praga.

Através de uma matéria e da imagem os anarquistas do jornal se posicionavam a respeito do que consideravam um dos males do marxismo: a pretensa Ditadura do Proletariado.

Vamos ao texto. Nele poderemos entender o que foi a Primavera de Praga e muito da crítica anarquista aos marxistas:

Na primavera de 1968 os tchecos experimentam o fim da censura à imprensa, o direito de viagens ao exterior, a livre discussão dos, até então, dogmas partidários.

Os operários discutiam nas fábricas o problema da autogestão das fábricas e em julho de 68 já se contavam 800 mil operários que participavam ativamente do controle dos seus locais de trabalho.

Mas a onda de liberdade começaria a incomodar a União Soviética porque os tchecos demonstravam interesse em transformar radicalmente sua sociedade, dinamizá-la e diminuir o papel centralizador do Partido. Além do mais, no campo econômico os tchecos estavam firmemente decididos a deixar de fazerem o papel de fornecedores de capitais para outros países da órbita soviética, e dividirem entre si mesmos os sucessos do seu desenvolvimento. É o que a União Soviética não aceitaria: controle operário da sociedade; socialismo com liberdade; fuga de sua tutela político-econômica.

Na noite de 20 de agosto de 1968 as tropas russas, secundadas pelas da Alemanha Oriental, Polônia, Hungria e Bulgária (a Romênia, apesar de membro do pacto de Varsóvia, se recusou a enviar tropas), iniciavam a ocupação do País, concretizada no dia 21. Nas medidas de “normalização” da vida tcheca, nos meses que se seguiram à Invasão, se notou um dos principais alvos da fúria do urso soviético: os conselhos operários eleitos durante a primavera foram, um a um, desmobilizados.

A União Soviética não admite que a classe operária assuma diretamente o Governo de nenhum país, isto frustraria o seu esquema ideológico de “estágio de ditadura do proletariado”. Os trabalhadores russos ainda “precisam” de seus guias salvadores, dos seus revolucionários profissionais, ou seja, de uma burocracia que se entulha de privilégios à custa do proletariado.

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