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Antonio Fernandes Mendes (3)

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Antonio Mendes em meio às pedras do Parque de São Bartolomeu, em Salvador

Apresento hoje um trecho de cordel inédito de Antonio Fernandes Mendes onde ele fala dos Camponeses da cidade cearense de Quixeramobim, e do Sindicato Independente fundado por ele e outros companheiros seus em 1963. Este texto foi escrito em 1999.

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 Cordel das Lutas Camponesas: Uma Homenagem ao Trabalhador Rural de Quixeramobim.

Quero fazer uma homenagem em versos
Aos meus companheiros das lutas sindicais
Em especial aos companheiros de Quixeramobim
Que há quarenta e cinco anos atrás
Assentados na solidariedade mútua
Entre companheiros leais.

Em assembleias livres e independentes
Fundamos o sindicato dos trabalhadores rurais
Antonio Femandes Mendes e Joaquim Rodrigues de Souza
Foram os seus criadores principais
Juntamente com Gilberto Barbosa e Antonio Gonçalves
Na fazenda Nova Olinda dentro dos Carracais

Sofremos dura repressão da ditadura
Saímos clandestinamente a educar De posse do método Paulo Freire
Foi fácil aos trabalhadores conscientizar
Na experiência das ligas camponesas
Abriram novos caminhos para nos facilitar

As ligas camponesas do Ceará
Nasceram em Maranguape e Redenção Acarape, pacatuba e aracoiaba
Estas cidades libertaram os negros da escravidão
Por isto escolhemos estas cidades
Para um processo de conscientização

Havia muito patrulhamento ideológico
Principalmente da esquerda autoritária
Que em vergonhosa sordidez
Procurava impedir de forma deletéria
O trabalho livre e independente
Daqueles que não chafurdavam na latrina da miséria

Nesses nossos encontros educativos
Lembro meu amigo Daniel Pereira
Caio Cirino de Paula, Mauro Pamplona de Freitas
João Araújo, Júlio Montenegro Bastos e Zé Ferreira
Ingrid de origem alemã, meu amigo filósofo
Filho de pacajus de família brasileira

José Mendes Fernandes, tio Joaquim Fernandes Mendes
Paulo e Pompeu e Pedro do Aracati
Arriscavam suas vidas numa educação constante
Naqueles sertões adustos, ouvindo o canto do juriti
Em plena seca nas frentes de trabalho
Distribuíamos clandestinamente versos enfrentando o Aracati

Não posso deixar de registrar os camponeses simples
Que se associaram sem tergiversar ao sindicato
Houve pânico sim, por conta da repressão
Mas eles sabiam, que eram vítimas de fato
Explorados pelos coronéis latifundiários
Juntos com toda a classe do patronato

Morreram todos coitados analfabetos
Por conta da exploração desalmada
Sem condições mínimas de educar um filho
Nas nossas pesquisas com o método camarada
Do genial Paulo Freire
Percorremos tabuleiros e chapadas

Conscientizando e educando
Aquela gente simples e sofredora
Que não tinham uma roupa ou um sapato
Pela vil exploração da classe trabalhadora
Trabalhando naquele sol escaldante
Preso naquela infernal gangorra

Quantos destes velhos camponeses
De rosto firme e cobriado
Encontrei sentados num tosco toco
Apenas com uma sunga velha surrada
Aguardando sua companheira lavar
Sua última roupa para ir ao roçado

Assim com sua firmeza forte
Nos abraçava com um grande aperto de mão
Aqueles heróis anônimos criando riquezas
Para engrandecer o poderoso patrão
Vivendo numa dura miséria
Sujeitos ao sunguelo e à suspensão do vale do barracão.

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Arquivado em Década 1990